O MIRANTE | 05-03-2024 19:00

O professor que lidera o município de Abrantes sem medo de decisões polémicas

O professor que lidera o município de Abrantes sem medo de decisões polémicas
Manuel Valamatos, presidente da Câmara de Abrantes, é um político de gosta de andar na rua e garante que nunca vai colocar de parte os seus princípios e valores só para ser politicamente correcto

Manuel Jorge Valamatos, 58 anos, tem uma carreira de duas décadas na política autárquica. É actualmente o presidente da Câmara de Abrantes e orgulha-se do rumo que tem traçado para o concelho com o apoio do seu executivo. De personalidade vincada e uma energia inesgotável, o autarca tem na sua base uma forte ligação ao associativismo e ao ensino. Natural do Tramagal e filho de pais professores, admite estar a trabalhar para ser melhor presidente mas garante que nunca vai colocar de parte os seus princípios e valores só para ser politicamente correcto.

O tecido empresarial é a grande marca do concelho de Abrantes?

Um elemento central de qualquer concelho é ter uma forte actividade económica e empresarial. O grande desafio que temos pela frente é conseguir manter todas as empresas e ajudá-las a crescer. Claro que é preciso captar novos investimentos. Penso que a Educação é outra área que nos distingue. Ter um parque escolar contemporâneo é fundamental. Não posso deixar de lado a Saúde. Pretendemos fazer mais uma Unidade de Saúde Familiar no nosso concelho para responder às necessidades básicas dos cidadãos. Vivemos em tempos desafiantes também do ponto de vista social e associativo. Queremos ver concelhos a crescerem de forma equilibrada e sustentada. É dessa forma que nos posicionamos.

É autarca há duas décadas e um homem de ideias fixas. Quais foram as medidas de que mais se orgulha?

A não entrada no processo de agregação ao sistema da empresa intermunicipal Tejo Ambiente. Os serviços municipalizados têm um património e uma história que merece uma atenção individualizada e um olhar muito especializado. Depois a pandemia, que aparece quando fico como presidente de câmara, e posteriormente o encerramento da central termoeléctrica a carvão no Pego. São os três momentos relevantes da minha acção enquanto autarca e da minha equipa, que envolveram muito trabalho e uma coordenação e capacidade de resistência brutais.

Está satisfeito com o executivo que escolheu?

Estou imensamente grato aos vereadores, pessoal do gabinete, chefes de divisão, a todos os trabalhadores do município, que são cerca de 600. Eles sabem que sou exigente, mas vivemos num clima positivo de trabalho, de confiança, onde cada um assume as suas responsabilidades. No entanto sou eu que decido. Mas sempre depois de tomar consciência e ouvir a opinião dos outros. Gosto de trabalhar em equipa.

Fez inimigos na política?

Não. Tenho muita gente que gosta de mim e também gosto de muita gente. Tenho algumas pessoas que não me facilitam a vida, mas compreendo a posição deles e nunca me deixo ficar. Não consigo deixar de ser quem sou porque isso obrigaria a uma perda de identidade. Reconheço que posso ir corrigindo alguns entusiasmos. Não se estuda para ser presidente de câmara, temos de ir aprendendo.

Quantas promessas fez que não conseguiu cumprir?

Não me lembro de nenhuma situação. Não sou muito de fazer promessas. Deixemo-nos de conversas. Primeiro fazemos e depois falamos. Às vezes é difícil responder às necessidades por causa da falta de mão-de-obra em algumas áreas. Abrimos concursos para áreas especializadas, como electricistas, carpinteiros, calceteiros, em que concorre uma ou duas pessoas. Há 20 anos apareciam dezenas.

Para o desenvolvimento da região faz mais falta uma nova travessia na Chamusca, em Constância ou Abrantes?

Faz falta que se faça alguma coisa. Como estamos é que não dá. Uma nova travessia na Chamusca não vai resolver a questão da conclusão do IC9 e precisamos muito da conclusão do IC9 para a região e para o país. Falando de mobilidade e acessibilidades deixe-me falar-lhe das SCUT, nomeadamente na A23. Quando foram implementadas eram para ser gratuitas. É essencial que o voltem a ser para garantir a coesão territorial.

O que menos lhe agradou no processo de transferências do Governo para o município?

Só saberei quando fizermos contas. Se perceber que as verbas que são transferidas não colmatam as lacunas existentes, então não me vai agradar nada. Entendemos que estar próximo e poder decidir é o ideal para responder às necessidades. No entanto, queremos que o pacote financeiro cubra verdadeiramente essa transferência de competências.

O açude de Abrantes já esteve várias vezes na ordem do dia pelas piores razões. Como está esse dossiê?

Neste momento o açude está em manutenção. As comportas estão abertas o que quer dizer que o rio corre livremente. Sabemos que temos que melhorar o funcionamento e, porventura, criar uma infraestrutura complementar à escada passa--peixe para facilitar a subida de algumas espécies. Gostaríamos muito de implementar um projecto hídrico de produção de energia que poderia obviamente optimizar aquele recurso e dar-lhe maior sustentabilidade no futuro. O rio Tejo é um elemento central na nossa região e no país. Há demasiados dias em que o rio é apenas um ribeiro. O Tejo precisa de ser monitorizado constantemente para se tornar mais regular.

O projecto que vai ser implementado no antigo mercado municipal vai calar os críticos?

Seguramente que sim. Calará as vozes dos críticos, embora as vozes dos críticos também sejam importantes. O futuro multiusos tem um papel duplo: primeiro reabilitamos um edifício central e importantíssimo para a cidade, mantendo a sua fachada, e depois vamos poder receber eventos como a Feira Nacional de Doçaria ou um Encontro Ibérico do Azeite, entre outros. Avançar com a obra é uma questão de prioridades. Neste momento estamos a avançar com a requalificação do Cine-Teatro São Pedro. Temos duas coisas importantes para lançar, nomeadamente a reabilitação de uma antiga escola primária para se tornar uma creche. Também queremos avançar com a requalificação e ampliação da Escola das Hortas, em Alferrarede, que vai ser uma unidade de saúde.

Que medidas tem tomado para dinamizar o centro histórico?

Queremos continuar a ter um centro comercial ao ar livre. Os centros históricos têm uma luta terrível contra as grandes superfícies comerciais, que têm estacionamentos gratuitos e com condições diferenciadoras. Mas o nosso centro histórico é muito bonito e uma das imagens da nossa cidade. Temos operadores extraordinários, gente com muita competência, gente nova a fazer diferente e mesmo agora foi aprovado o nosso projecto dos bairros comerciais digitais. São 700 mil euros para investir na introdução de linguagens digitais para a dinamização do centro histórico.

Custa-lhe ver o estado em que está o tecido associativo?

Claro. O Governo tem verdadeiramente de olhar para este problema. As pessoas que dão de si à comunidade têm de ter mais reconhecimento. Há cada vez mais exigências e mais responsabilidades e isso desvia as pessoas do associativismo. Temos de encontrar mecanismos de valorização das pessoas.

Os problemas causados pelo fecho da central a carvão do Pego podiam ter sido antecipados?

A central do Pego quando foi construída sabia-se que tinha 30 anos de funcionamento. Aquilo que disse na altura ao Governo foi que achava que a central só devia encerrar quando os outros projectos tivessem em pleno funcionamento para não haver este hiato de tempo em que não há uma coisa nem outra. Neste momento está a dar-se início à implementação de um projecto de 600 milhões de euros de produção de energia verde: eólica, solar e hidrogénio. Para além disso queremos captar investimento de empresas, através do Fundo de Transição Justa, para que se fixem no nosso território e mitigar o impacto do encerramento da central.

Os arrependimentos atrapalham-no?

Ninguém sabe tudo e todos poderíamos voltar atrás relativamente a algumas decisões. Se tivesse alguma situação que me arrependesse verdadeiramente demitia-me. Não tenho arrependimentos, no entanto há sempre coisas que poderia melhorar e fazer melhor. Sou muito honesto, sou um indivíduo aberto, sem tretas.

Qual é a sua grande conquista?

Do ponto de vista pessoal são os meus filhos…a minha família. Os meus filhos hoje são adultos e têm uma boa vida. Houve muitos anos em que lhes faltei bastante, do ponto de vista da presença e das brincadeiras, porque a vida profissional assim o impunha. A minha mulher é uma mãe extraordinária. O meu maior feito, muito por culpa deles, tem sido manter uma família unida. Sou um homem de comunidade e não vejo as coisas só dentro da minha casa. Sinto que as pessoas gostam de mim e eu também gosto das pessoas. Talvez seja esta forma de estar na vida que fez a população de Abrantes votar em massa no nosso projecto nas últimas eleições. Essa também foi uma das minhas grandes conquistas.

Um homem do desporto e do associativismo a quem chamam Néo

Autarca em Abrantes há duas décadas Manuel Jorge Valamatos é um homem simples, de personalidade forte, com uma energia inesgotável e o controlo emocional necessário para exercer um cargo público de elevada responsabilidade. Nasceu em casa, em Tramagal, a 20 de Maio de 1965. Filho de pais professores, tem mais dois irmãos sendo que um deles o apelidou há muitos anos de Néo, nome pelo qual diz ter orgulho em ser tratado. Viveu em Vale das Mós e no Rossio ao Sul do Tejo por isso frequentou vários estabelecimentos de ensino durante a infância. Aluno aplicado, terminou o curso de Educação Física e tornou-se professor, profissão para a qual diz ter vocação e à qual espera um dia voltar.
Garante não estar agarrado ao cargo de presidente da Câmara de Abrantes, afirmando que é um homem livre no pensamento e nas acções. Vive de forma apaixonada todos os momentos da sua vida, seja na política, no associativismo ou na vida familiar. É pai de dois filhos, João Pedro e José Pedro, e companheiro de vida de Paula César por quem diz ter amor, profundo respeito e admiração por ter sido uma mãe extraordinária nas suas ausências.
Jogou futebol e futsal, foi treinador e dirigente associativo. Diz que não gosta de meias palavras, embora admita que está a trabalhar para gerir melhor os seus entusiasmos. Gosta de ser o presidente de todos os abrantinos e não esconde que tem orgulho do rumo traçado para o concelho. Manuel Jorge Valamatos é um político que gosta de andar na rua, não foge ao confronto e diz que nunca se esquece que um líder só o é verdadeiramente quando consegue reunir uma equipa à sua volta que lute pelos mesmos objectivos.
Como presidente de câmara eleito por maioria pela população Manuel Jorge Valamatos promete continuar a trabalhar em prol do desenvolvimento económico do concelho, captando novas empresas, e a investir nas áreas da Educação e Saúde que considera fundamentais para combater os desequilíbrios sociais.

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