O MIRANTE | 06-03-2024 17:00

Um grupo sem tabus que faz teatro para mudar mentalidades

Um grupo sem tabus que faz teatro para mudar mentalidades
Joaquim Salvador é um dos principais impulsionadores de Os Revisteiros, grupo de teatro de Samora Correia, concelho de Benavente, que deu os primeiros passos em 1986

O fascínio do palco levou Joaquim Salvador a reunir um grupo de amigos para fazer teatro. Os Revisteiros começaram em 1986, em Samora Correia, e nunca mais pararam. Hoje têm um público fiel e levam à cena espectáculos, revistas e animação para todas as idades. Joaquim Salvador recorda-se de uma Samora Correia conservadora e congratula-se com a mudança de mentalidades proporcionada através dos Revisteiros, um grupo sem tabus, tal como o seu fundador.

Que imagem guarda de Samora Correia nos seus tempos de juventude?

Samora Correia era muito conservadora e fechada. Uma terra de tapadeiros. Sou filho e neto de tapadeiros em que os terrenos eram alugados à Companhia das Lezírias para auto-sustento. O comércio tinha poder, havia mais partilha entre as pessoas e a terra era vivida. As pessoas arranjavam-se para ir à vila, era um acto festivo. Recordo-me do cheiro das flores, da fruta, da terra molhada e de quando a terra era lavrada. Era uma terra com alguma graça, fechada como todo o país, e tudo o que era novo era criticável. Quem tinha ideias diferentes ou novas tinha de passar por uma série de bitolas.

Como é que o teatro surge na sua vida?

Quando me fazem essa pergunta nunca consigo responder porque desde miúdo sou fascinado pelo palco. Fazia teatro na minha casa com cortinas velhas que a minha mãe tinha e o meu público eram as minhas primas. A mesa de matar o porco era o palco. Construía teatrinhos em tijolo e recortava dos jornais as publicidades das peças de teatro que estavam em Lisboa, principalmente do Parque Mayer, e colava em cima das portas. As pilhas da telefonia eram as filas das pessoas para entrar no teatro, portanto sempre imaginei um teatro cheio.

Esse gosto era influenciado pela família?

Sou filho de uma mulher que adorava cinema. Os meus pais iam ver tudo o que era filmes porque na altura havia cinema em Samora Correia. Tínhamos o teatro em digressão em que as companhias vinham de Lisboa para actuar nas terras. Mas não fui criado numa casa onde se fazia teatro. A minha mãe sempre me apoiou e foi um pilar. Dizia que eu tinha que fazer aquilo que gostava. Já o meu pai queria que fosse médico.

O percurso que fez foi a pensar pisar os palcos?

As coisas foram-me acontecendo…Trabalhei um Verão no centro de dia da Fundação Padre Tobias, na ocupação dos tempos livres, e quando me vim embora criei um espectáculo para os idosos com um grupo de amigos que tinha. Sempre adorei contar histórias e saber das histórias dos outros. Fizemos esse espectáculo, que correu muito bem, e depois pensei em fazer uma revista à portuguesa.

Foi o que deu o mote aos Revisteiros?

Com 14 ou 15 anos eu e um grupo de amigos fizemos essa revista e actuámos no antigo cinema de Samora Correia, que está hoje ao abandono. Lembro-me de alguém ter ido à Sociedade Portuguesa de Autores e comprou livros com rábulas de revistas. Criámos a sátira que adaptámos localmente e foi um êxito. Daí vem o nome Revisteiros e foi assim que surgiu.

Quais são os seus maiores desafios enquanto encenador?

É continuar a atrair novos públicos e ter sempre gente nova e caras novas na sala. O Centro Cultural de Samora Correia e os Revisteiros já têm corrente de público e isso dá-me muito prazer. Mas temos de estar um passo à frente, perceber que a sociedade e o público vai mudando. A arte não pode estagnar.

Ainda é apaixonado pelo Chiado?

Vivi vários anos em Lisboa e tenho uma paixão pelo Chiado. Lembro-me das vezes em que bebia café sozinho naquelas esplanadas e ouvia a conversa da mesa do lado, caso me interessasse. Cheguei a usar essas conversas no teatro, junta com outras histórias. Sou por natureza um observador. A minha grande motivação é a construção das personagens e de levar os outros a embarcarem nesta loucura.

Samora Correia é uma cidade pensada para o futuro?

Muitas pessoas que vieram para cá viver inseriram-se na vida social. Vejo isso pelo Carnaval e teatro. Tenho pena que Samora Correia tenha perdido muito comércio e alguma estrutura. As terras são o produto de quem nela habita e cabe às pessoas mudar. Não podemos dizer que a culpa é só do poder político.

Como seria uma sociedade sem teatro?

Uma sociedade sem teatro era muito cinzenta, obscura e infeliz. O teatro é uma arte que está em tudo na nossa vida. Todos fazemos teatro sem nos apercebermos. Não imagino a vida sem teatro. O mundo do teatro é transpor para cima do palco o mundo real. Não é como uma novela ou cinema em que se alguma coisa correu mal se repete. O teatro tem o respirar do público e temos de fazer ginástica cerebral para o público reagir. Tenho que os agarrar e ter aquela sala comigo.

Quais foram as peças de teatro mais marcantes dos Revisteiros?

A peça que mais me marcou foi “Semente em terra queimada” pela forma como foi construída. O que me fascina é a criação a partir do zero, o actor criador. Nesta peça o centro cultural ficou transformado em oficinas teatrais com as pessoas mergulhadas nas suas cenas, a fazer pesquisas, a criar as suas personagens…Foi tudo vomitado e veio das entranhas de cada participante. Isso para mim é o grande valor do teatro. Essa complexidade de ir às gavetas das nossas memórias são instrumentos de trabalho para a criação das personagens.

Tem algum tabu? Temas que não levaria para cima do palco?

Vejo todo o tipo de arte sem limite e sem tabus. Só é uma obra de arte se conseguir mexer com os outros, criar no outro um efeito nem que seja de que não gostou. Sempre fiz o que quis e tive espaço para fazer o que criei e me dava prazer. Lembro-me de termos feito a peça “Puta de vida”, escrita por Mário Pereira. Era um espectáculo fora da caixa na altura em que a SIDA era tabu. “Deuses do Mal”, que foi levado à cena na antiga cooperativa de Samora Correia, criava muito efeito no público. O espectador estava fechado numa arena de areia a assistir a teatro saído das entranhas. Houve pessoas que chegaram a sentir-se mal porque aquilo mexia muito com elas.

Quais são os espectáculos com mais público?

A comédia e a revista são os que têm mais público com salas completamente lotadas nas várias sessões e com pessoas de outros concelhos a assistir. Dá-me muito prazer fazer revista à portuguesa. A ideia da sátira, o ser um espectáculo exclusivamente português…devia ser património. Temos grandes actores de revista. É um espectáculo muito caro e é difícil levar sempre à cena. Antes da pandemia fizemos uma revista. Como não fazíamos há muito tempo foram quatro horas e o público ficou do início ao fim. As pessoas a aplaudir de pé. Foi extremamente marcante.

O Carnaval de Samora Correia não seria o mesmo sem os Revisteiros?

Os revisteiros colaboram há 30 anos com a ARCAS no Carnaval porque no início não havia pessoas suficientes para pôr em cima dos carros e foi feita uma parceria. Faleceu recentemente o Manuel Parracho a quem esta terra lhe deve muito porque, em boa hora, pensou organizar o Carnaval que se tinha vindo a perder. Faço uma vénia a esse grupo de homens que conseguiu organizar o Carnaval. Sou fascinado pelo Carnaval. O ano para mim só começa a seguir ao Carnaval.

O que falta ao Carnaval de Samora Correia para se afirmar como um dos melhores do país?

Falta as pessoas falarem umas com as outras e unirem-se mais para tornar o Carnaval maior. Já devia ter dado o salto. Sendo o cartão-de-visita turístico do concelho devia haver uma parceria entre o município de Benavente e a ARCAS. Sozinhos não vamos lá. Ainda não conseguimos dar o salto para nos sabermos promover.

Os Revisteiros têm sido valorizados?

As pessoas perceberam que a cultura deve crescer e ser valorizada. Sempre lutei com os mais velhos que a cultura é importante e também com os mais novos para lhes incutir o gosto cultural. Sempre foi uma luta nossa fazer teatro para crianças. Os públicos educam-se desde cedo e todos os anos levamos à cena uma ou mais peças infantis.

Como é que gostava de ser lembrado?

Gostava que se lembrassem de mim como alguém que gosta de ser diferente e de mudar mentalidades. Tenho pena que na sociedade de hoje queiram ser todos iguais, tudo pelo exterior. Cada um tem de se apresentar como é, sem barreiras. Não tenho que gostar ou não do teu fato, se és feliz com ele. Custa-me muito ouvir coisas sobre os imigrantes que cá estão. Somos todos humanos e todos deitamos sangue quando nos cortamos. Tenho os braços abertos para receber todas essas culturas que cá estão. Adoro quando dizem Portugal é o meu pais e agora é a minha casa.

Já se desiludiu?

Já me desiludi muitas vezes. A minha maior desilusão era talvez utópica mas não vou dizer qual é. Temos momentos de desilusão mas depois damos a volta. Tive momentos em que disse vou desistir, vou mudar de vida, não vou fazer mais isto, mas são momentos passageiros, como as desilusões. Não me quero continuar a desiludir com as pessoas, é só isso que espero.

Tem saudades da televisão?

Tenho saudades da televisão e de poder, sem autorização, entrar na casa das pessoas. Na época dizia se muito mal do Big Show SIC e hoje em dia é uma referência. Tenho muito prazer de ter feito parte do programa das pessoas que conheci. Adoro televisão em directo porque é como o teatro. Não queria fazer novelas mas agora se me perguntar se queria estar em antena e apresentar um programa de televisão, ou ser comediante num programa de televisão sim queria. Isso foi um pouco o que me desiludiu pelas opções que tomei. A televisão e o cinema fascinam-me muito.

Qual foi a personagem mais difícil de interpretar?

Um dos momentos mais desafiantes da minha carreira foi fazer de um pai na série Praxe, relacionada com a história dos miúdos que morreram na praia do Meco. Fazia de pai de um aluno que morreu e nunca percebi que estar em tensão e quase sem texto, só com expressões, para mim foi um desafio maluco. Estou habituado a falar muito e ser alegre. Saí de lá cheio de dores de cabeça.

Os Revisteiros vão continuar sem Joaquim Salvador?

Luto para isso. Para que o pessoal mais novo continue mas não é tarefa fácil.

Os Revisteiros e o teatro têm sido sempre vividos por si com a Sónia Lapa…

Conheci a Sónia Lapa num curso de teatro e depois veio a vida amorosa. Trago a Sónia de Lisboa até esta localidade e ela vestiu a camisola. Não podem dizer mal de Samora Correia ao pé dela. A nossa vida só faz sentido com o teatro. Temos 33 anos de vida em comum, de teatro e de partilha de sonhos.

Revisteiros ambicionam espaço próprio

Corria o ano de 1986 quando um grupo de amigos se juntou com o intuito de fazer teatro, movidos pela paixão e motivação do principal fundador e actual responsável pela existência do grupo, Joaquim Salvador.
Ao longo de 38 anos muitas pessoas entraram e saíram, muitos foram os espectáculos, revistas, peças, rábulas e animações levadas à cena no concelho de Benavente, Vila Franca de Xira, Lisboa e nos Açores.
O grupo começou a sua actividade no extinto cinema de Samora Correia. Mais tarde, por volta de 1990, mudou-se para o salão de espectáculos da Cooperativa União Samorense, onde continuaram com o sucesso das revistas.
Nessa altura o grupo sofreu a primeira tempestade com a mudança de espaço e o abandono de alguns dos fundadores. Mas foram entrando pessoas novas, algumas com formação e experiência profissional.
Este sangue novo, juntamente com a viragem da visão cultural da região, trouxe ao grupo uma nova roupagem e ambição de alargar os horizontes para géneros de teatro até então nunca praticados, como o Teatro do Absurdo com o espectáculo “Deuses do mal”.
Fizeram-se os primeiros espectáculos de rua com as peças do 25 de Abril e as performances dramáticas em peças de Verão, apoiadas pela Junta de Freguesia de Samora Correia e pela Câmara de Benavente, sempre arrastando multidões e envolvendo muitas vezes mais de meia centena de actores.
Fizeram-se espectáculos de moda e variedades para angariar fundos para o grupo, que traçava um percurso semi-profissional.
Joaquim Salvador promove, com a Junta de Freguesia de Samora Correia, o espectáculo comemorativo da atribuição da Carta de Foral a Samora – A Gala do Foral, espectáculo que se mantem até hoje.
Em 2005 abrem-se as portas do Centro Cultural de Samora Correia com a apresentação da peça “8 por Amor” da Associação Teatral Revisteiros.
O auditório da Pluruicoop entra em degradação por falência da cooperativa e o grupo perde a sua sede, espaço de ensaios e que servia de armazém de guarda-roupa e cenários. Situação que ainda hoje atinge o grupo. Os Revisteiros ambicionam um espaço próprio mas nunca vão parar enquanto houver um par de palmas a bater pelos seus espectáculos.

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