José Pacheco Pereira é a Personalidade do Ano de O MIRANTE
Em tempos de desinformação e de ataques à democracia, tem sido incansável no combate à “cultura da boçalidade e da ignorância agressiva”. José Pacheco Pereira tem como uma das suas principais realizações a Ephemera, o maior arquivo privado português e provavelmente da Europa.
José Pacheco Pereira, professor, historiador, político, cronista e comentador, foi a escolha da redacção de O MIRANTE, para Personalidade do Ano 2025, pela sua inquebrantável e activa defesa da liberdade, da democracia, da língua portuguesa, da cultura e da nossa memória colectiva.
Intelectual público com pensamento próprio e uma obra notável a vários níveis, tem como uma das suas principais realizações a Ephemera, o maior arquivo privado português e muito provavelmente da Europa, que teve início na vila da Marmeleira, no concelho de Rio Maior, quando José Pacheco Pereira ali se decidiu instalar, em 2003.
A Ephemera teve origem na imensa e rica biblioteca de família de José Pacheco Pereira, e cresce a cada hora graças ao trabalho de centena e meia de voluntários, tendo actualmente instalações em várias localidades, as maiores das quais são dois armazéns no Barreiro e um hangar em Santa Iria da Azóia. Associado ao arquivo e biblioteca são dinamizadas exposições, conferências e editados livros.
José Pacheco Pereira desenvolve uma imensa actividade a nível de conferências, em todo o país, junto de escolas e associações, promovendo os valores da liberdade, da democracia, da língua portuguesa, da cultura e da história, conhecendo como poucos a sociedade portuguesa.
Em tempos de desinformação crescente e de ataques à democracia, tem sido uma voz serena, lúcida e incansável, no esclarecimento informado e sustentado, de quem procura informar-se e confrontar opiniões, combatendo com firmeza a “cultura da boçalidade e da ignorância agressiva”.
Nascido a 6 de Janeiro de 1949, no Porto, numa das mais importantes famílias portuguesas, licenciou-se em Filosofia e foi professor do ensino secundário e universitário. A nível político foi deputado pelo PSD em vários mandatos, entre 1987 e 2011, um dos quais pelo círculo eleitoral de Santarém, sendo eleito nas legislativas de 2009. Foi também vice-presidente do Parlamento Europeu entre 1999 e 2004.
É colaborador regular da imprensa escrita, sendo actualmente cronista do jornal Público e da revista Sábado. Também é comentador político na televisão. Participa actualmente no programa “O Princípio da Incerteza” da CNN Portugal, também transmitido na rádio TSF.
A 9 de Junho de 2005 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade pelo então Presidente da República Jorge Sampaio. A 3 de Novembro de 2025 recebeu a Grã-Cruz da Ordem de Camões, atribuída pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, devido ao seu “trabalho da memória”, como membro honorário da Associação Ephemera.
É autor de uma vasta bibliografia onde se conta uma biografia de Álvaro Cunhal em quatro volumes, os livros "Diário dos dias da peste", "A vida contada nos papéis da memória", "Inteligência Artificial e Cultura" e "Personalia", entre muitos outros, alguns deles esgotados no mercado.
José Pacheco Pereira foi um dos principais signatários do Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa Contra o Acordo Ortográfico de 1990, que O MIRANTE não adoptou.
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Pacheco Pereira: o Homem e a sua Obra
José Pacheco Pereira nasceu no Porto, em 1949, e é no Porto que também de vez em quando ouvimos referências à sua pessoa e ao seu trabalho intelectual. Pelas livrarias que costuma visitar há uma especial, do editor José Cruz dos Santos, nascido na mesma cidade em 1936, que não poupa elogios ao autor da biografia de Álvaro Cunhal, de quem gosta de falar e de dizer que fica honrado com a sua visita, por ser um dos mais prestigiados autores e colunistas da imprensa portuguesa. Pacheco Pereira tem 75 anos, mas o seu ritmo de trabalho e a sua disposição para aceitar convites para conferências, entrevistas e cuidar da sua maior Obra que é o Arquivo / Biblioteca Ephemera, não tem limites. No dia em que lhe comunicamos a decisão da redacção de O MIRANTE não escondeu a satisfação, mas avisou logo que para estar presente na entrega do prémio tínhamos que marcar a data com alguma antecedência para que pudesse agendar a tempo e horas. A Personalidade do Ano de 2025 de O MIRANTE criou com a Ephemera o maior arquivo português dedicado à preservação de livros, periódicos, documentos e objectos ligados à memória da História contemporânea portuguesa; é uma Obra imensa que se deve acima de tudo ao seu espírito crítico e empreendedor, que se pode comprovar também no facto de ser comentador do mais antigo debate sobre a política portuguesa, num programa agora denominado “O Princípio da Incerteza”, mas que antes já teve outros nomes como a "Quadratura do Círculo".
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Sou um especialista do efémero
No seu livro “Personalia”, editado em 2021 pela Tinta da China, a propósito de ser, muitas vezes, visto como político, José Pacheco Pereira, escreve:
“Caibo mal apenas na pequena caixa [dos políticos] em que me metem. Durante quase toda a minha vida escrevi (e falei) sobre assuntos que se consideram fora da política. Não sei pesar bem as quantidades e muito menos as qualidades, mas é um número substancial, desde crítica de arte, uma parceria com Óscar Lopes no suplemento literário do Comércio do Porto, escritos diversos no Diário de Lisboa, no &etc e noutros jornais esquecidos, até à participação no primeiro happening da Sociedade Nacional de Belas-Artes, a uma espécie de sessão de vanguarda com o Jorge Lima Barreto e Ângelo de Sousa, a traduções de Emily Dickinson, René Char, Henri Michaux, Bertolt Brecht, a ensaios sobre Rilke e Bashô, a discretas aulas de cosmologia e filosofia das ciências em várias escolas, a conversas públicas sobre arte, como uma sobre o homem da capa deste livro, John Frederick Peto (há muitos anos em Serralves), ou sobre Giorgio Morandi (algures no Bairro Alto)”. E acrescenta: “Significa esta enumeração que desejo algum reconhecimento intelectual por essa obra? Não há obra nenhuma, apenas fragmentos. E aqui têm a resposta tão arrogante como muita outra coisa: sei demais para ter qualquer ilusão sobre essa fama. Eu próprio não dou muito valor a tudo isto, porque já vi muita coisa, e já li muita coisa. E sou, digamos assim, especialista do efémero.”.


