O MIRANTE TV | 30-07-2026 11:41

Bordadeiras da Glória querem que a arte de “marcar” não fique presa ao museu

Bordadeiras da Glória querem que a arte de “marcar” não fique presa ao museu

No Dia Mundial do Bordado, mulheres da Glória do Ribatejo alertam para a dificuldade de passar às novas gerações uma tradição que continua viva, mas exige tempo, paciência e aprendizagem.

Na Glória do Ribatejo, bordar é “marcar”. A expressão atravessou gerações e continua a ser usada por quem cresceu entre linhas, agulhas, panos, talegos e lenços de namorados. Neste 30 de Julho, Dia Mundial do Bordado, as bordadeiras da Glória lembram uma arte que ajudou a vestir ‘casas’, crianças, enxovais e namoros, mas que enfrenta hoje o desafio de chegar aos mais novos.
Maria Monteiro, Domicília Nunes e Custódia Maria aprenderam ainda crianças. Maria Monteiro, 65 anos, recorda que as mães davam “uma pontinha de linha e uma agulha” e as sentavam ao pé delas para começarem a fazer os primeiros pontos. A aprendizagem fazia-se em casa, com as mães, avós, vizinhas e mulheres mais velhas.
Rita Pote, directora da Associação Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo, também aprendeu a marcar aos seis anos. Para a responsável, as peças das bordadeiras são “verdadeiramente artísticas” e resultam de “uma vida dedicada ao bordado”. “Não é qualquer pessoa que comece agora a bordar que faz peças desta natureza”, sublinha.
Na Glória, os bordados marcaram durante décadas o quotidiano. Segundo Rita Pote, as mulheres “marcavam tudo”: cortinas, panos, peças para a casa, roupas de criança, aventais, lenços, talegos e bolsas.
Apesar da persistência desta arte, Rita Pote não esconde a preocupação com o futuro. Considera difícil que as gerações jovens se dediquem espontaneamente a um trabalho moroso e exigente, num tempo em que tudo é mais rápido e descartável. Ainda há mulheres na casa dos 30 e 40 anos que bordam, mas entre os mais novos a prática é esporádica.
A inscrição dos Bordados da Glória do Ribatejo no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial trouxe maior visibilidade à tradição, mas Rita Pote insiste que o essencial é manter vivo o saber fazer. “Nós não queremos” que os bordados fiquem apenas no museu, afirma. O desafio é que continuem a passar de mãos em mãos, para que a história da Glória continue a ser escrita ponto por ponto.

Uma reportagem para ler na edição impressa de O MIRANTE

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