Opinião | 03-05-2019 12:30

Cidadania e Governança: Coopetividade

O individualismo é o elemento predominante na sociedade dos dias de hoje.

Os valores de outrora mais presentes e duradouros, não são os mesmos dos dias de hoje. Tantas são as explicações para este facto, mas as evidências mostram uma grande diferença, entre o antes e o hoje, em relação aos valores centrais da sociedade e isso deveria preocupar-nos a todos.

O vocabulário português fica mais rico quando uma nova expressão suscita o interesse geral das pessoas e, ainda mais, se traduz o apelo à aplicação de práticas, no nosso quotidiano, de valores como a solidariedade e a sustentabilidade planetária. O conceito de coopetividade apresenta-nos uma nova postura para a sociedade. Será que veio para ficar?

Coopetividade junta competição à cooperação e está associada à preocupação com o planeta, a nossa casa comum. É um apelo à partilha, ao aproveitamento de sinergias entre entidades públicas e/ou privadas, em que a sustentabilidade é o valor central. A sustentabilidade refere-se a três grandes questões: (1) recursos mundiais - fundamentais para a sobrevivência do ser humano (ar, água e biodiversidade, …); (2) recursos nacionais – o que é considerado pertença de todos (rios, lagos, florestas, …); (3) recursos compartilhados – aquilo que as comunidades constroem para seu próprio usufruto (ruas e praças públicas, gimnodesportivos, bibliotecas, …). O conceito implica um sentimento maior pelo valor coletivo, centrado no cuidado pela preservação do ecossistema.

Sabemos que o individualismo é o elemento predominante na sociedade atual. Os valores de outrora mais presentes e duradouros, não são os mesmos dos dias de hoje. Tantas são as explicações para este facto, mas as evidências mostram uma grande diferença, entre o antes e o hoje, em relação aos valores centrais da sociedade e isso deveria preocupar-nos a todos. Talvez aprofundar as causas que justificam os modelos de comportamentos e de governo existentes. As evidencias mostram-nos um constante despique entre empresas, entre instituições, ou mesmo entre colegas de trabalho. Todos os dias assistimos a testemunhos que relatam as suas histórias sobre o ‘vale tudo’ para conseguir ganhar mais e mais. Segundo o sociólogo polaco Zygmunt Bauman (2001) “Vivemos em tempos líquidos. Nada foi feito para durar”.

Os padrões da sociedade, hoje em dia, assentam mais em estatísticas do que em evidências. Padrões que se esbatem quando assistimos, de longe, pela televisão, a crianças subnutridas ou ao caos provocado por tsunamis ou outros fenómenos da natureza. Efeitos-resposta provocados pela natureza ao comportamento do ser humano, onde predomina um sistema político mais preocupado com o nível ‘macro’ do que o que acontece em determinado ponto (comunidade) do planeta. Elogiamos as vantagens do funcionamento em rede, como por exemplo na produção de energia limpa, mas o que constatamos é, cada vez mais, o ‘aparecimento’ de mais postos de combustível fóssil ao longo das estradas.

Precisamos de ser coopetitivos, cooperando e competindo simultaneamente, seguindo um modelo que nos permita crescer, acompanhando a aceleração das mudanças a nível global. A participação efetiva de todos nas decisões e ações a implementar, desde logo nas comunidades, será o ponto de partida, fundamental, para garantir a eficiência da sustentabilidade. O importante é formar círculos, em cada uma das fases da ‘cadeia de valor’, agregando o saber de cada um.

A cadeia de valor, segundo Michael Porter, é um modelo que ajuda a analisar atividades específicas através das quais as empresas criam valor e vantagem competitiva. Mas, a maneira como essas atividades são realizadas determina o seu impacto na comunidade e no planeta em que todos vivemos e, se for positivo, estabelecem-se redes de confiança.

Ao adotar este modelo da ‘cadeia de valor’, as pessoas e as entidades coletivas assumem o compromisso de realizar boas práticas de sustentabilidade com os seus pares que acompanham cada fase do processo até que tudo se transforme em algo útil para a sociedade. Assim estamos a falar de coopetitividade e o resultado dessas práticas sustentáveis é o legado que fica para as futuras gerações.

José Fidalgo Gonçalves

Investigador Católica-CESOP

maio.2019

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