Opinião | 06-11-2019 10:00

Cheirinhos tradicionais e semáforos pisca-pisca

Cheirinhos tradicionais e semáforos pisca-pisca
OPINIÃO

Emails do Outro Mundo

Vanguardista Serafim das Neves

Os maus cheiros que referes no teu último e-mail, nomeadamente os maus cheiros em Alcanena, são um clássico do sistema aromático da região. Uma espécie de Chanel nº 5 na versão industrial.

Embora eu já tenha experimentado os seus efeitos, foi sempre de passagem que eles me atingiram. Mesmo assim posso dizer-te que aquilo tem uma acção mais potente que a de uma moca daquela aguardente que é feita com ácido das baterias dos camiões.

Os títulos dos jornais de finais do século passado, são iguais aos usados na entrada do novo século , na primeira década do mesmo e nesta segunda década. Ainda agora passei os olhos por velhas notícias dessas egrégias eras e confirmei. “Nunca cheirou tão mal em Alcanena” é o título mais usado e isto apesar de não ser verdadeiro porque, na verdade, o que deveria ser escrito, era: “sempre cheirou assim mal em Alcanena”.

Há também um título que se repete, do qual discordo e que é: “Ninguém aguenta os maus cheiros em Alcanena”. Uma notícia escandalosamente falsa, uma vez que ainda há vida em Alcanena e fôlego para protestar. Pouco e cada vez menos, mas há.

A provar o que digo houve, há dias, uma manifestação contra os maus cheiros organizada pelos estudantes. O Presidente da República não foi lá dar os tradicionais abraços fofinhos e tirar divertidas selfies mas, de certeza que irá lá dar um mergulho no aroma, nem que seja com máscara anti-gás.

O que eu estranho é que, ao fim de décadas, ainda não tenha aparecido nenhum defensor das tradições a declarar que os maus cheiros devem ser preservados devido, sei lá... ao seu valor cultural, por exemplo. E não te estejas a rir. Eu até já fui à página da Unesco para ver se não haveria por lá uma candidatura a Património Olfáctico Imaterial da Humanidade.

Outra tradição se mantém é no bloqueio periódico da ponte da Chamusca por camiões que ficam encalacrados no meio de um tabuleiro que foi projectado para carroças. Portugal sempre foi enconicado e gerido por enconicados. Por isso, a ponte não poderia deixar de ser assim...enconicadinha.

E ainda bem, porque se manteve a tradição de evitar obras faraónicas e, cento e tal anos depois, temos estes momentos de regresso ao passado, com guardas republicanos a esbracejar para orientar as manobras dos camionistas, semáforos desligados ou a fazer pisca-pisca amarelo, filas de carros de portas abertas com condutores a sapatear de impaciência e empresas paradas porque o pessoal está, patrioticamente, na bicha da ponte. Confesso que nestas alturas até me dá vontade de cantar o Heróis do mar/Nobre povo/Nação valente... e dar vivas à Pátria.

O presidente da câmara da Chamusca, o inefável tradicionalista Paulo Queimado, quer dar os louros da animação regular da ponte às Infraestruturas de Portugal. Os lá de Lisboa, modestos até dizer chega, recusam a honraria e atribuem-lhe o feito a ele. Os salamaleques são saudados festivamente por vibrantes buzinadelas dos foliões da ponte. Adivinha-se a qualquer momento a aprovação de legislação que permita dar subsídios compensatórios às empresas que se instalam no Eco-Parque do Relvão na Carregueira. Não conseguem trabalhar, é verdade, mas contribuem para a manutenção... das nossas belas tradições.

Saudações desbragadas

Manuel Serra d’Aire

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