Opinião | 28-11-2019 01:41

As touradas e a imbecilidade humana

Um texto onde se fala do guardião do Tejo, dos ambientalistas, dos deputados ociosos, dos bancos que comem tudo e não deixam nada e de Alves Redol que está em cena em Alverca.

Não há no concelho de Vila Franca de Xira outra figura tão importante culturalmente como Alves Redol. Um século depois do seu nascimento, o autor de A Fanga só não continua actual para quem acha que caminhamos no melhor dos mundos, onde não há “Fronteiras Fechadas”, e o dinheiro e a tecnologia resolvem todas as infelicidades e desgraças de uma civilização cada vez mais dividida e, curiosamente, cada vez mais analfabeta. Num tempo em que está em causa a morte do planeta, os ambientalistas fazem do fim das touradas a sua grande luta contra a imbecilidade humana. Num tempo em que a agricultura usa os pesticidas sem controle, provocando doenças que ninguém é capaz de inventariar; a água de regar as culturas é usada de forma arbitrária, sem qualquer vigilância, os rios são guardados e defendidos por cidadãos, como é o caso de Arlindo Consolado Marques, um herói que os ambientalistas ignoram. Num tempo em que os banqueiros vão à falência, depois de roubarem o dinheiro do povo, e voltam à actividade bancária para continuarem a roubar, mas agora com o apoio do Estado. Num tempo em que a criação de animais de aviário é feita em espaços super lotados, com as aves quase sempre sentadas para engordarem o suficiente no tempo mais rápido possível, sem que o Governo tenha capacidade para fiscalizar as condições sanitárias ou o uso de hormonas, o grande desígnio desta gente é combater as touradas.

Os livros de Alves Redol fazem falta nas escolas como fazem faltam os professores que gostam de literatura, teatro e cinema. Andamos todos a alimentar uma escola onde boa parte dos professores não são avaliados nem estão a trabalhar naquilo que mais gostam; e quando trabalham têm que viver em quartos alugados porque estão a muitos quilómetros de casa. É uma pequena vergonha o ensino em Portugal, com muitas e honrosas excepções, apesar da desgraça. Bastava pôr as Fundações portuguesas a pagar impostos e haveria dinheiro para tirar os alunos e os doentes dos hospitais de dentro dos contentores. Ninguém sabe, nem questiona, os milhões de euros que as Fundações poupam em impostos, que serviriam para Portugal ser um país mais desenvolvido e moderno, mais justo e solidário, com mais justiça e menos desigualdades.

Quem acompanha de perto a política que se faz entre o Terreiro do Paço e a Assembleia da República sabe mais da miséria humana que um toureiro sabe das manhas dos toiros. No entanto, é muito raro ouvir um deputado, ou um ex-deputado, a desmascarar a ociosidade dos eleitos, a falta de trabalho, a pouca importância que têm no Governo do país e da coisa pública. O mais triste é vê-los a deixarem-se usar como os pastores se servem da lã das ovelhas, a maior parte das vezes aceitando trabalhos de assessoria em empresas que são quem, verdadeiramente, manda na Assembleia da República.

Nota: este texto foi inspirado na peça de Alves Redol, Fronteira Fechada, que está em cena no Teatro do Grupo Cegada, em Alverca (Ver texto nesta edição) JAE.

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