Opinião | 05-01-2020 17:20

Nós de nós mesmos e da ciência...

Enquanto a maioria de nós coça a cabeça resolvendo problemas ordinários do dia a dia, desde pagar as contas à saúde, aprender mais (talvez) e subir na vida, matemáticos estudam nós.

Enquanto a maioria de nós coça a cabeça resolvendo problemas ordinários do dia a dia, desde pagar as contas à saúde, aprender mais (talvez) e subir na vida, matemáticos estudam nós. Jörn Dunkel, professor de matematica do MIT, Mathias Kolle, professor da Rockwell International Career Development também do MIT e os Pós-Doutorandos Vishal Patil e Joseph Sandt acabam de publicar no jornal Science, o resultado de décadas de estudo e dois anos de experiências com fibras especiais, coloridas.

Defendem, de modo inusitado, como alguns nós têm desempenho melhor do que outros, como o nó “oito”, ou “infinito”, feito com uma fibra especial que muda de cor sob tensão. Regiões de alta tensão (verde, amarelo) podem ser facilmente distinguidas das seções do nó com baixa tensão (vermelho, laranja).

Essas fibras especiais, que mudam de cor quando estão sob tensão, até prova em contrário, suportam algumas regras simples que podem prever “como um nó se comportará no mundo real”.

Este observador lidou com nós computacionais, na década de 70, quando os computadores que demandavam uma sala climatizada imensa, porque eram enormes e precisavam refrigeração para não queimar seus circuitos que não tinham a capacidade para armazenar mais do que 12 kbytes de memória e processavam dados a uma velocidade, patética, de bits por segundos, ao contrário de hoje nós podermos “googlar” em nanossegundos a maior enciclopédia da história da humanidade... Mas era bom, escrever, à mão e com lápis, programas para aplicações diversas de uma empresa, ou de problemas matemáticos. Como esses, que aquelas fibras especiais podem auxiliar a resolver, por exemplo, explorar propriedades abstratas de curvas idealizadas.

Meus nós se resumiam em bifurcações logarítmicas em que duas decisões eram tomadas, a partir de um simples “sim” ou “não” a uma pergunta que era construída num algorítimo anterior e assim sucessivamente. De modo que, havendo uma resposta direta, o processamento de certos dados seguiam o curso do programa, caso contrário o programa retinha aquela informação até aquele ponto e subsequentemente regurgitava em forma de relatório impresso, qualquer que fosse a situação. Isso era entendido como nós a se desfazer, como moer um guisado duas ou mais vezes, ou descartar gorduras. Ilações à vontade, caro paciente leitor...

“As pessoas usam nós desde os tempos antigos, quando milhares de nós foram inventados”, declara o jovem indiano Patil, à NPR Media New. Na verdade é mais do que isso. Junto à IGKT – International Guild of Knots Tyers (UK), entidade a que sou filiado e, como honorário, à Pacific America Branch - IGKT (USA), defendo a teoria de que o primeiro nó foi criado acidentalmente, ou termodinamicamente, dentro do útero de uma fêmea (humana ou do universo dos animais irracionais), o nó do cordão umbilical em que alguns fetos enredam-se. E, à parte os nós mitológicos nas tranças de marinheiros dados por suas mulheres (a motivação é romanticamente fascinante) antes de se lançarem ao mar, vieram os nós necessários em touceiras de fibras orgânicas e pêlos de animais com que eram construídos os primeiros agasalhos, dos homens das cavernas; e os primeiros artefactos de caça, pesca e defesa pessoal. Daí em diante, de fato, milhares de "nós" foram desenvolvidos e milhares de "nós" foram inventados.

Na inevitável miopia genial do grupo do MIT, comentam aqueles cientistas: "O fato de eles (os nós) se comportarem de maneira tão diferente sugere que deve haver alguma história lá, algo que você possa dizer matematicamente e fisicamente sobre eles".

O grupo do MIT parece ter ignorado que aqueles primeiros criadores de nós foram motivados pelo instinto (inteligência) sinestésico que atravessa milênios nas civilizações de toda a Pangea, subindo e descendo montanhas, atravessando oceanos e veios d´água, peregrinando pelo tempo e se revela, hoje, nos praticantes de esporte e artistas. Uma capacidade potencial, uma explosão inercial latente para uma sequência de atos que, alguns indivíduos às vezes nem sabem explicar porque deflagraram aquele gesto, aquele golpe, aquele chute e assim por diante. Um nó, muitas vezes foi criado pelo acidente inevitável da necessidade. Talvez o mais genial golpe do ser humano, dar um nó para si mesmo.

É claro, os cientistas do MIT querem com o trabalho publicado chamar a atenção para um novo tipo de fibra por eles criado, e isso não sabemos ainda se tem utilidade prática, neste mundo, como o nó na trouxa no cabo da enxada, ou é apenas mais um vetor apontando para o futuro fantástico dos superhumanos, que o marketing terá que lidar.

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*Luís Peazê é jornalista, escritor e tradutor, entre suas obras traduzidas consta "Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway (Bertrand) www.luispeaze.com

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