Opinião | 13-02-2020 07:00

Viver a vida a trabalhar longe do trabalho

O restaurante Mirante da Paraíba, no Brasil, é só um pretexto para o autor desta crónica confirmar que a vida não é só trabalho mas que mesmo a viajar estamos sempre a trabalhar.

Há muitos anos fui convidado a visitar Jericoacoara, a meio de uma viagem a Porto Seguro, onde subi o Monte Pascoal. Fiquei de tal modo agarrado ao lugar onde, segundo reza a história, os índios avistaram pela primeira vez as naus de Pedro Álvares Cabral, que não tive coragem de deixar a cidade durante 15 dias de férias que passei por lá. 25 anos depois, de mochila às costas, meti-me a caminho e cumpri o sonho adiado.

Pelo que me contaram já não fui a tempo de reconhecer Jericoacoara dessa altura. Mas ainda vale a pena perdermo-nos naqueles caminhos de areia e dunas, mar e rios.

Fiz o caminho já de noite, a partir de Jijoca, na camioneta do Pantera, acompanhado de uma dezena de nativos que tinham vindo à cidade tratar da vidinha. Todos com menos de metade da minha idade. Cheguei à pousada Paradise, com o Rodrigo do outro lado do telefone, antes de negociar a viagem, a desaconselhar-me todas as propostas indecentes que me fizeram antes da decisão de viajar no banco da frente ao lado do Pantera.

Jijoca é uma cidade a uma dúzia de quilómetros de Jericoacoara, que vive dos turistas que viajam para o mítico lugar do Ceará. É lá que deixamos os nossos carros e é para lá que voltamos depois da descoberta do paraíso. Apesar da existência de pousadas de cinco estrelas esqueçam o conforto dos grandes hotéis. Fiquei na pousada Paradise, gerida pelo Rodrigo, e paguei cerca de 20 euros por noite; mas só o tempo que ele me dedicou a contar histórias, e o prazer de o ver a fumar um baseado, sentado na rede, justifica o preço da diária e desculpa todas as falhas com a Internet, a falta de água quente e as duas ou três baratas sem importância que me fizeram companhia durante três noites.

Foi ele que me recomendou o restaurante para jantar, mas também o pequeno espaço onde tomei diariamente o café da manhã, que paguei com os trocos que sobravam dos passeios, que ele também ajudou a marcar a preço de amigo. Hoje Jericoacoara não é nada daquilo que ouvi contar, mas a culpa é minha que viajei com mais de 20 anos de atraso. Mesmo assim valeu a pena, embora há duas dezenas de anos certamente teria aproveitado muito melhor as noites de festa.

Aproveitei a proximidade com o estado de Piauí e do Maranhão e fui dormir à cidade de Parnaíba para dar uma volta pelo rio e visitar as praias e, melhor do que as praias, os Lençóis Maranhenses, outro projecto adiado das viagens do tempo em que tinha mais olhos que barriga.

Fiz muitos quilómetros de carro, comi muitas moscas pelo caminho, dormi demais para o meu gosto, mas nunca mais me vou esquecer da Anna, do Gleicivan, da Lindalva, do Rodrigo, do Pantera, do Tiago, da Gardénia e do Valdir. E de mais meia dúzia de pessoas que, tal como eu, têm o sonho de ir por esse mundo fora mas acabam presos nas teias de aranha do lugar onde nasceram ou onde escolheram sobreviver a trabalhar.

Falta contar que em Parnaíba fui almoçar ao restaurante Mirante, que é um dos que de vez em quando aparece pelo meio das pesquisas sobre notícias de O MIRANTE. De repente, o dono do restaurante, que fica na Praça do Amor, no centro de Paraíba, era o mais orgulhoso dos proprietários de um título a verde que é o orgulho da família.

Gleicivan, o filho de José Ribaba, que comprou o restaurante em 2005, acabou de o renovar e fazer dele um dos melhores lugares para comer no centro da cidade. Ficava bem aqui um pequeno apontamento sobre as qualidades gastronómicas do Mirante e um pouco da história de vida do proprietário que é um homem que trabalhou muitos anos no duro para ter uma vida decente. Mas o espaço é curto e escrevo esta crónica quase na hora de me meter num avião de regresso a Lisboa, para depois ir trabalhar para Santarém, ainda a tempo de, no outro dia, ir apanhar umas laranjas ao campo da Chamusca. JAE.

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