Opinião | 21-07-2020 12:30

As aventuras e desventuras do estranho doutor AMOR e outras divinas comédias

As aventuras e desventuras do estranho doutor AMOR e outras divinas comédias
OPINIÃO

Emails do Outro Mundo

Intrépido Manuel Serra d’Aire

A Câmara da Golegã continua a fazer história nestes tempos de pandemia, implementando medidas muito à frente da concorrência. Enquanto muitos municípios se desunham por atrair turistas e as patacas que trazem com eles, na Capital do Cavalo a autarquia decidiu fechar as suas piscinas a forasteiros. Ali, neste Verão, só entram nativos, mediante apresentação do Cartão do Cidadão ou comprovativo de residência, para não haver abébias. Não sei se serão também obrigados a vestir um escafandro para entrar na água, mas já não digo nada... Porque com o vírus não se brinca.


Acredito que esta medida radical e algo xenófoba que visa proteger a saúde dos goleganenses vai causar uma onda de tristeza e comoção entre os banhistas de todo o país, e não só, que já tinham colocado na agenda uns mergulhos nas afamadas piscinas da Golegã. Agora vêem-se obrigados a tirar o cavalinho da chuva e a irem pregar para outra freguesia graças a este peregrino decreto municipal.


Virando a página: para muita gente, mais do que o passar dos anos e o definhamento do corpo e da mente, é o medo da irrelevância que lhes atormenta a existência quando se dobra a meia-idade. Depois de uma vida plena de conquistas, quem teve poder, e a consciência do fascínio e do temor que esse poder exerce sobre os outros, deve ter dificuldade em encarar a reforma e ceder o lugar de estrela da companhia. Parece que é isso que está a acontecer ao antigo presidente da Câmara de Torres Novas, António Rodrigues. Tal como escreveste, o homem reapareceu em cena com estrondo, primeiro com o lançamento de uma autobiografia e depois com a criação de um movimento político independente que não descarta uma candidatura ao município onde já foi rei e senhor durante vinte anos.


O ex-autarca reapareceu em grande e trouxe o respectivo séquito com ele, para mostrar ao seu pequeno mundo que ainda arrasta discípulos e é homem para grandes cometimentos. Rodrigues, também conhecido localmente pelo acrónimo AMOR (de António Manuel Oliveira Rodrigues), está invadido pela nostalgia do poder e despeitado com o partido pelo qual foi feliz. Mas, acima de tudo, tem pavor de cair na irrelevância, como ser que nutre um amor desmedido e assolapado por si próprio.


Curiosamente, a apresentação do seu movimento decorreu no antigo Convento do Carmo, obra polémica e atribulada do seu consulado que levou anos a concluir e que, caso Rodrigues tivesse vontade e mãozinhas para tal, tinha assunto para dar um excelente livro de aventuras. Assim, parece-me que o ex-autarca estará mais condenado às desventuras que habitualmente afligem quem quer regressar ao poder como salvador da Pátria e choca de frente com a realidade das urnas e da vontade popular. Como já aconteceu com outros camaradas seus por terras ribatejanas...


Por último, dizer-te que vou rever as minhas convicções sobre a existência de Deus, muito graças ao profeta Bolsonaro. A sua infecção com Covid-19 só pode ser uma comédia com dedo divino...


Saudações balneares do
Serafim das Neves

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