Opinião | 15-10-2020 07:00

A guerra contra o Diabo e um apelo às armas

Os patrões da comunicação social desinteressaram-se da única associação (API) que tinha voz para reivindicar junto do Governo. Por ser uma associação amordaçada e confinada, a imprensa regional e local não tem interlocutores junto dos poderes de Lisboa.

Conheço um músico de orquestra que depois de cada trabalho enfia o instrumento na mala até chegar a hora da actuação seguinte. É assim há muitos anos. É músico profissional como muitos são talhantes, caixas de supermercado, cantoneiros, etc, etc, por que não conseguiram ainda melhor profissão para ganharem a vida. É um músico profissional que já sabe a música de cor, não tem respeito pelo maestro nem toca em orquestras que lhe exijam muito. O exemplo serve para comparar com aqueles profissionais do jornalismo que acham que a profissão resolve-se diariamente com umas notas sobre a pandemia, uma entrevista com um político ou um dirigente desportivo e dois ou três textos roubadas da reunião de câmara dos assuntos de antes da ordem do dia. Não estou a atirar pedras a ninguém, mas a fazer um exercício que só me contempla a mim, que ainda sou jornalista de tarimba, quase 33 anos depois de ter fundado este jornal.

Esta semana tomei a decisão de pedir a demissão da Associação Portuguesa de Imprensa (API) de que somos sócios desde a fundação do jornal. Aprendi muito com o associativismo; com os jornalistas e os patrões dos jornais que noutros tempos davam o coiro e o cabelo na defesa dos seus interesses. Era nesses encontros que os políticos do Governo gostavam de se mostrar; era nessas arenas que percebiamos quem estava no negócio para fazer jornalismo e quem estava no jornalismo para valorizar os negócios.

Ver como o mundo mudou nos últimos 30 anos na área da comunicação social é um exercício mais fácil para quem entrou no jornalismo por dever de cidadania e não por opção profissional. Por isso, esta semana pedi a demissão da única associação que conheço que representa os jornais nacionais e regionais. Estive sempre na primeira linha do combate associativo; e devo ter sido daqueles que mais luta deu às direcções da associação sempre numa postura de combate pelo colectivo. Desisti. A API, antiga AIND, continua a ser gerida por gente que respeito como pessoas mas que, como dirigentes, não valem um chavo.

33 anos depois de fundar O MIRANTE ainda vivo a ensacar jornais, a angariar assinantes, a dirigir jornalistas, a zangar-me todas as semanas com os distribuidores dos jornais, enquanto a grande maioria dos dirigentes baixaram os braços, vivem alegremente do sistema ou sobrevivem do negócio que se tornou ser dirigente associativo. A coisa é complicada demais para explicar numa crónica. Fica aqui a nota para que os leitores de O MIRANTE saibam que somos líderes de mercado, mas não dormimos na forma.

Não é a pandemia que está a acabar com a imprensa local e regional; é a falta de liderança empresarial e a incapacidade para reivindicar junto do Governo medidas de apoio para a comunicação social que trabalha e representa 90% do território que sofre os problemas que todos bem conhecemos. Agora que o associativismo devia ser um apelo às armas, para citar a ministra da Justiça, a propósito do combate contra a fraude e a corrupção, a associação que representa os jornais (API) está amordaçada e confinada; não há reuniões, nem estratégias conjuntas, nem planos de acção que ajudem o sector a sair da crise ou a minorar os seus efeitos. Que fiquem com Deus; nós vamos continuar a guerra contra o Diabo. JAE.

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