Opinião | 18-11-2020 15:00

A animação que é ter uma criança no recreio com uma pistola de brincar

A animação que é ter uma criança no recreio com uma pistola de brincar
OPINIÃO

Emails do Outro Mundo

Travesso Serafim das Neves

Fiquei feliz por saber que, pelo menos nos próximos anos, não vai ser feita a ligação por auto-estrada entre Almeirim e a Barquinha. É que assim, o pessoal que ainda mora na Chamusca, por exemplo, não tem a tentação de abalar para Lisboa. Se tanta gente já se foi embora mesmo tendo que fazer a viagem até à A1, por carreiros de cabras, imagina o que aconteceria com uma via rápida ali à porta.

E aqueles que se queixam dos camiões carregados com resíduos a passar por dentro das aldeias a caminho do Parque do Relvão, na Carregueira, lembrem-se que, com aquele trânsito desviado para a auto-estrada, iriam perder a única animação que lhes resta. De que falariam durante as horas que passam na esplanada do café a ouvir o zum-zum da arca dos gelados, ou no banco dos pichas murchas?

Por falar nos grandes investimentos, vê lá o que está a acontecer por causa do anúncio da passagem do TGV por Rio Maior, mesmo sem paragem. Há pessoal em Santarém que geme de ciúmes por não poder ouvir o zzzuuutttt, zzzuuuttttt, zzzuuuttttt dos comboios supersónicos a passar ao longe, deixando no ar papéis de pastilhas elásticas, beatas e máscaras usadas que o pessoal tanto gosta de deitar para o chão. Valha-lhes Santa Genoveva.

Por falar em Genoveva, não da santa mas da nossa amiga, digo-te que ela ficou entusiasmada com o recolher obrigatório. O primeiro-ministro disse que quem for encontrado a circular naquele período, sem justificação, será acompanhado a casa pelas autoridades e ela viu ali uma janela de oportunidades.

Como adora fardas, sejam da tropa, da GNR ou da PSP, diz que já se está a imaginar a ser escoltada, numa tarde de sábado ou domingo, por um latagão fardado, até à porta de casa, debaixo dos olhares invejosos das vizinhas. A dúvida dela é saber se a deixam fazer uma “selfie” aqueles momentos, para pôr nas redes sociais.

Aqui há dias uma criança do Entroncamento levou uma pistola de brincar para a escola e foi uma animação para políticos, educadores, pais, professores, coscuvilheiras, alcoviteiras, catequistas, polícias, autarcas, repórteres do quotidiano, animadores de redes sociais e coisas que tais. Fizeram-se comunicados, ditaram-se sentenças, pregou-se moral e exaltaram-se as virtudes da educação.

O petiz andou alegremente a mandar os outros pôr as mãos no ar, como costuma ver fazer nos filmes, nos telejornais e por vezes até ao vivo, lá no bairro, e eu fiquei cheio de inveja porque quando era miúdo e calhava levar pistolas de água ou de fulminantes para a escola, não acontecia nada daquilo. De um modo geral não me ligavam nenhuma ou se ligavam era para me mandarem estar quieto ou para me afinfarem um calduço. Eram tempos muito desinteressantes, aqueles.

Os deputados dos partidos da oposição costumam fazer prova de vida, enviando perguntas a membros do Governo. Os que pertencem à maioria não precisam de fazer tal coisa porque podem ligar directamente para os camaradas governantes, mas também gostam de fazer perguntas. É uma forma de nos tentarem fazer crer que não dizem amén a tudo. E é tão fofinho ver os deputados do PS de Santarém a fazerem perguntas do tipo: “Porque é que vocês governam tão bem”.

Uma cotovelada valente

Manuel Serra d’Aire

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