Opinião | 13-02-2021 07:00

Quando se começa a amar não é para sofrer desta maneira

O ciúme é das principais causas para a consumação do acto de violência no namoro . Muitos jovens legitimam as atitudes de agressores como uma forma de amar. Cerca de 67% consideram como normal alguns comportamentos considerados violentos.

Se é importante a sociedade discutir a violência entre adultos, igualmente importante ( e talvez mais ainda) é alertar os nossos jovens para a violência no namoro.

A formação do jovem e da sua personalidade começa a desenvolver-se na fase da adolescência.

A descoberta dos sentidos nas relações entre pares é fundamental para a sua aprendizagem e crescimento.

Há limites em quase tudo na vida e nas relações pessoais é preciso que se perceba a individualidade de cada um, reconhecendo o é que (e deve ser) intransponível. A personalidade que vai sendo formada cria opiniões e vontades próprias e isto são factores inalienáveis enquanto seres humanos em pleno desenvolvimento pessoal.

A fase do namoro também serve para se perceber o que é possível e permitindo, e o que não é de todo possível e nem de todo permitido.

A vida começa aqui... Se por um lado a problemática deste assunto era, em tempos idos, uma questão que se devia resolver “ dentro de quatro paredes”, a nossa legislação penal, como a sociedade em geral, acordou para o tema fazendo dele um debate intenso mas ainda insuficiente. A gravidade da situação assim o exigia e é necessário que se deva exigir ainda mais. Os números estão aí.

A violência no namoro, que é exercida para se tomar uma posição dominadora da relação, trará consequências em larga escala para as vítimas, neste período das suas vidas em que o turbilhão de sentimentos é vivido a um ritmo alucinante em constante mudança. Lidar com todos os sentimentos é para eles uma questão de difícil gestão.

O amor que sente pelo outro, o medo de se ser rejeitado e um potencial valor baixo de auto-estima, podem, na minha opinião, serem factores de uma certa dose de submissão que eleva o grau de violência.

Pela correria contra o relógio e contra tempo onde tantas vezes não nos encontramos a nós mesmos, para os pais com filhos a entrar na adolescência, peço quase encarecidamente e por Amor de Deus se for preciso, para terem atenção redobrada nesta complicada fase da vida dos seus filhos.

Pode ser fatal a distância dos progenitores e estou em crer que essa distância potencializa o risco. Conhecer atempadamente as relações dos filhos é sem sombra de duvida um factor de protecção e de análise comportamental, afinal quem melhor conhece os filhos como ninguém é sem sombra de dúvida os pais. Os sinais em vítimas de violência no namoro são dados muitas vezes subjectivamente visto que não são verbalizados, mas para escutar esses sinais de informação que vão sendo emitidos soando por vezes como um grito de socorro, ter-se-à que estar disponível para os receber. Sinais esses que em regra são o isolamento, a falta de apetite, a dificuldade em dormir, as discussões ou a irritabilidade sem razão aparente e ainda os mais graves que se acentuam a nível físico. São inúmeros os exemplos. Basta estar atentos a eles porque existem.

Nem todos os pais certamente saberão lidar com situações como estas ou análogas mas a ajuda existe e a APAV ( Associação Portuguesa de apoio à vítima) é uma das possíveis ajudas a quem se pode recorrer como também a ajuda clínica.

Mas se por um lado os pais tem a responsabilização maior, é na comunidade escolar que os sinais são mais evidentes, porque é aí que os jovens passam a maioria do seu tempo. Toda a comunidade escolar tem que estar preparada, não só para debater insistentemente esta questão como ter ao seu dispor quadros especializados capazes de analisar a fundo este problema e reencaminha-lo caso seja necessário.

Fica a questão para debate. Será que as nossas escolas estão aptas para lidar com o tema? Estão sensíveis e atentas à questão onde o seu papel social é também parte da solução?

Mas não se julgue que a violência que se exerce é apenas física. A lista é vasta e passa pela violência psicológica ( 84,5% dos casos conhecidos) a violência emocional ( 82%), verbal ( 80,3%) e de muitas outras tipologias.

Segundo o Observatório da Violência no Namoro 20,4% das vitimas necessitaram de receber tratamento médico e 2,8% foram hospitalizadas.

Podem consultar estes dados aqui: https://www.associacaoplanoi.org/observatorio-da-violencia-no-namoro/

O ciúme é das principais causas para a consumação do acto de violência e ainda existem muitos jovens que legitimam as atitudes do agressores como uma forma de amar. Cerca de 67% consideram como normal alguns comportamentos considerados de violência. É disto que temos que tratar.

É urgente alterar este paradigma social porque estamos a analisar questões de “ pequenos homens e de pequenas mulheres” de hoje mas que amanhã serão adultos na sua plenitude e que irão tentar construir uma sociedade melhor.

Para isso acontecer, nós que estamos aqui e agora, temos a obrigação de lhes deixar exemplos e valores, alertando para que estes e muitos outros comportamentos não podem passar pelos pingos da chuva.

O normal é amar, não é sofrer desta maneira.

Este flagelo, que deixa marcas nas nuvens do tempo que habitam por cima da cabeça destes jovens para sempre tem ainda números assustadores em pleno século XXI mas que a todos nós, enquanto parte integrante de um todo social, nos deve preocupar e que atinge todas as raças e credos bem como todas as classes sociais. Este problema não tem exclusividade.

É um vírus, se quiserem ver as coisas desta forma. E este vírus também pode matar como já matou. Pensem nisto antes que seja tarde.

Sérgio Guerreiro

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