Opinião | 22-02-2021 07:00

Tejo

Assim como Portugal enche constantemente a boca com o mar como futuro e destino colectivo e, desde as Descobertas, nada fez para o concretizar, também a região de Santarém passa a vida a falar do Tejo sem saber o que fazer. Pobre terra esta onde o grande assunto são as bolas de pedra do largo do Seminário de Santarém.

Mesmo nestes dias de chuva, indo ao miradouro do velho Liceu de Santarém, fico sempre deslumbrado com aquela lezíria que me inunda a alma. Sinto sempre o pulsar dos meus avós maternos lá em baixo, na sua velha casa no orgulhoso bairro da Ribeira e vem-me também sempre à memória aquela foto do meu avô Júlio de gravata, com as calças arregaçadas e com os pés dentro do leito da cheia, enquanto a minha avó Berta também com os pés na água, vai sorrindo serenamente para o anónimo fotógrafo.

Imagino os trabalhos e a agitação própria do ganha pão quotidiano, das deslocações nos velhos barcos de madeira conduzidos por resolutos barqueiros, que permitiam, por exemplo, a minha mãe não faltar às aulas no Liceu.

Tento conjecturar o que iria nos seus anseios para a sua Santarém. Percebo sim que nesses anseios, o Tejo faria certamente sempre parte integrante das suas meditações. O Tejo e as suas cheias sempre lhes marcaram o ritmo da vida, da sua existência e dos ciclos das colheitas: ano de cheia, barriga cheia. O Tejo era quem lhes sulcava as rugas no rosto e os seus trabalhos quem lhes tisnava o corpo. O Tejo era, ao mesmo tempo, tristeza e alegria; sofrimento e prazer; lágrimas de dor e de felicidade. O Tejo era quem maioritariamente lhes colocava o pão no prato. O Tejo era o seu sustento.

Não se trata apenas de saudades de mãe e avós, mas também e sobretudo de gizar representações que podem ajudar a construir um futuro comum.

Assim como não existe futuro para Portugal como País independente sem o mar, também não existe futuro para a região de Santarém sem o Tejo.

Infelizmente, assim como Portugal enche constantemente a boca com o mar como futuro e destino colectivo e, desde as Descobertas, nada fez para o concretizar, também a região de Santarém passa a vida a falar do Tejo sem saber o que fazer. Os oceanos e o rio Tejo compõem, pois, paisagens miríficas e poéticas que possibilitam a construção de textos idílicos e persuasivos, mas que até hoje de pouco ou nada serviram para o desenvolvimento colectivo. São representações que dão um jeitão enorme à espuma dos dias.

Ninguém sabe o que fazer, nem com os oceanos, nem com o Tejo. Contudo, fazer do Tejo uma oportunidade é ambicionar um futuro, até porque não abundam matérias primas nos subsolos lusitanos.

A título meramente exemplificativo, continua a não ser compreensível a inexistência de percursos ribeirinhos à beira rio, sejam de passadiços, ou de meros trilhos bem marcados e assinalados. O último termina em Vila Franca de Xira. E a linha férrea não pode ser desculpa. Está lá e dificilmente dali sairá.

Não é compreensível que os autarcas da região não se mobilizem em torno de um projecto concreto e comum que tenha o Tejo como centralidade e como grande argumento. Um projecto que se vá construindo ao longo dos anos, por módulos integradores e que não obrigue a megalomanias imediatas. Sem limites à imaginação, independentemente depois do necessário pragmatismo. Olhe-se bem com atenção para os enormes bancos de areia que, além de irem assoreando, vão concomitantemente modificar o percurso da água...

Um projecto que elimine os nanoprojectos de quintinhas que se limitam a desbaratar recursos em rotundas e obras gémeas pífias, que se multiplicam sem qualquer sentido. Um projecto que conceba uma matriz estratégica de desenvolvimento para toda a região de aquém e além Tejo, matriz essa que concretize novas áreas para a instalação sinérgica de muito mais indústrias, de uma alargada e sólida rede regional de cuidados de saúde, alargamento significativo da área de regadio, modernização e incremento de actividades de lazer ao ar livre, etc, etc.

É muito diferente vender uma vasta região para projectos de investimento, do que uns meros hectares ao redor de uma povoação. Nada nesta região será construído com alcance verdadeiramente estratégico, sem o envolvimento de todos e do grande rio que tanto nos diferencia e nos identifica.

Pobre terra esta, onde o grande assunto são as bolas de pedra do largo do Seminário de Santarém. Em vez de se discutirem essas - pelos vistos - tão surpreendentemente eloquentes bolas de pedra, convinha antes levantar a cabeça e tentar perscrutar o horizonte.

P.N.Pimenta Braz

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