Opinião | 08-04-2021 07:00

Diário de uma semana com muito trabalho

Portugal tem 230 deputados que alguns consideram ilustres desconhecidos. José Sócrates escreve no Brasil mas os jornais portugueses publicam em segunda mão com chamada à primeira página.

Um presidente de uma entidade reguladora em Portugal confessou-me recentemente que se admira como ainda existem em Portugal jornalistas que conseguem escrever livremente. Diz ele que está tudo por conta das grandes empresas que controlam os meios com o volume milionário das verbas publicitárias. A confissão é recente e o leitor mais bem informado não precisa que eu dê “nome aos bois” para saber do que estamos a falar.


Um conhecido político da nossa praça, e habitual espalha brasas no que toca a chamar nomes aos deputados, governantes e ex-governantes, começava assim um texto de opinião num jornal diário de referência: “a grande maioria dos nossos 230 deputados é constituída por ilustres desconhecidos. Não se lhes conhece obra ou pensamento, mas esperteza não lhes faltará”, introdução para os acusar de serem “deputados de negócios” e “biscateiros da democracia”. A informação não tem nada de novo. Há dezenas de anos que a Assembleia da República se tornou um altar para os maiores negócios que contribuem para o enriquecimento de uma classe privilegiada, que se formou no regime democrático, com os amigos certos nos lugares certos.


Há cerca de uma dezena de anos viajei para o outro lado do mundo para participar num congresso de jornalistas e patrões dos media. O presidente honorário do congresso era o presidente da Assembleia da República. Amigos comuns puseram-nos a falar familiarmente numa sala para matarmos o tempo. Fiquei a saber que a segunda figura do Estado tinha aproveitado a viagem para tratar de negócios, na sua qualidade de consultor de um conhecido empresário chinês, com largos anos de influência na economia portuguesa e nos jogos de casino.


Portugal está a viver neste momento, em termos mediáticos, o que a França e a Itália, só para dar dois exemplos, já viveram há muito tempo. Quem já dispõe de uma tribuna num jornal ou numa televisão tem praticamente garantido espaço nas outras todas. Basta estalar os dedos. Para alguns deles, na grande maioria políticos ou advogados com interesses em várias frentes, “o sol nunca se põe: de manhã na rádio, à noite na televisão e na imprensa escrita, num fluxo contínuo de textos de opinião” (do livro “Os Novos Cães de Guarda, Celta Editora, 1998). Hoje de manhã na rádio (escrevo no domingo à tarde), ouvi um desses intelectuais que escreve sobre livros, política, filosofia, cinema, em diversos meios de comunicação social (e ainda é consultor do Presidente da República), confessar que conhece muita gente culta, que já não lê jornais. Afirmou ainda que os media estão a viver a maior crise de sempre e que, embora não acabem tão depressa, vão viver dias de grande penúria. Como é evidente, o desgraçado que proferiu estas palavras factura, no mínimo, uma dúzia de avenças, e o seu maior trabalho é ter que largar a caneta para pegar na colher quando chega a hora das refeições.


O novo “Diário de Notícias” é uma verdadeira decepção para a grande maioria dos seus leitores de outros tempos. Metade do jornal são artigos de opinião de gente que estava na prateleira e que agora ganhou novo estatuto. Nenhum deles consegue escrutinar o Poder: quase todos vivem, ou viveram, por perto das mesas dos cardeais, de pensamento único, de ontem e de hoje.


Há jornais que à falta de matéria editorial transcrevem páginas inteiras, com chamada à primeira página, dos artigos que José Sócrates publica no Brasil, numa colagem a Lula da Silva que só prejudica o estadista brasileiro. Ao contrário de Sócrates, que quis ser o escritor de livros mais famoso do mundo, e que foi para Paris fazer vida de luxo, aparentemente à conta dos empréstimos de um amigo, Lula da Silva ainda se apresenta como metalúrgico, o que devia ser uma lição para Sócrates que se diz engenheiro, e agora mestre em ciências políticas, embora ninguém lhe reconheça os graus. Citando o livro que refiro mais acima, “a maioria desta gente encontram-se, frequentam-se, entreglosam-se, estão de acordo em quase tudo”. De vez em quando divergem em pequenas coisas para depois se rirem dos outros já cansados de se rirem de si próprios e das suas habilidades.

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