Opinião | 10-04-2021 19:40

As moscas

Portugal é um pequeno país organizado em forma piramidal, assente em micro-poderes de raiz ditatorial que odeiam o mérito, temem a inteligência e perseguem os livres-pensadores ( :) Um povo, com este tipo de organização e que relativiza a noção do Bem e do Mal aos seus próprios interesses, impede, inevitavelmente, qualquer solução que vise a regeneração social e do sistema, seja por via legislativa, educativa, repressiva ou judicial, na medida em que os comportamentos não se alteram com a mudança de protagonistas.

Durante muito tempo, vivi convencido de que os portugueses, em geral, tinham uma consciência ética e a perfeita noção do Bem e do Mal, até pelas suas constantes e vibrantes manifestações de indignação, quer nas mesas de café, quer nas redes sociais, contra a corrupção, o compadrio e as cunhas. Mas estava redondamente enganado.

Para o cidadão português, o Bem e o Mal não são conceitos abstractos que se aplicam a todos por igual, mas conceitos bem concretos e relativos que têm, por única referência, os seus próprios interesses. Por exemplo, a cunha tanto pode ser um Bem como um Mal: é um Bem se beneficiar a sua filha num concurso público; é um Mal se beneficiar a filha do vizinho.

Veja-se como reagiram os portugueses às decisões instrutórias no caso Marquês (Sócrates) e E-Toupeira (Benfica). A indignação extrema, em qualquer dos casos, é exclusiva de quem não é socialista e benfiquista, porque os socialistas e os benfiquistas reagem, logo, com os submarinos e o Apito Dourado. Os beneficiados com as decisões judiciais, por mais incompreensíveis e revoltantes que sejam, declaram sempre, solenemente, a sua confiança inabalável na justiça. Aliás, não há político, banqueiro, agente ou dirigente desportivo que, mesmo sendo apanhado em flagrante, não proclame a sua fé cega na justiça portuguesa, a quem se agarram como o náufrago à tábua de salvação. É, de resto, por estas e por outras, que há, hoje, umas pessoas que confiam mais na justiça do que outras. E mal vai a justiça quando certas pessoas confiam tanto nela…

A corrupção, ao contrário do que aparenta a indignação geral, é um tema a que os portugueses, quando lhes toca a si e aos seus, são absolutamente indiferentes. “Se os outros cá estivessem, faziam o mesmo.” É a resposta pronta que poucos conseguem contrariar.

Portugal é um pequeno país organizado em forma piramidal, assente em micro-poderes de raiz ditatorial que odeiam o mérito, temem a inteligência e perseguem os livres-pensadores. Com se tem visto ao longo da nossa história, os portugueses são como o vinho: os melhores são para exportação.

Ora, um povo, com este tipo de organização e que relativiza a noção do Bem e do Mal aos seus próprios interesses, impede, inevitavelmente, qualquer solução que vise a regeneração social e do sistema, seja por via legislativa, educativa, repressiva ou judicial, na medida em que os comportamentos não se alteram com a mudança de protagonistas, seja de partidos, de dirigentes ou de políticos.

Como diz o povo, mudam as moscas, mas a merda é sempre a mesma. E o mais grave, tal como aconteceu na “Metamorfose” de Kafka, a estrumeira à beira-mar plantada pela política portuguesa transformou os portugueses em moscas, mosquitos e moscas varejeiras, única forma de aqui conseguirem sobreviver. E ninguém espere agora que sejam as moscas, com o seu voto, a eleger alguém para limpar a pocilga. Pelo contrário, vão eleger quem lhes garanta a ampliação da estrumeira.

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