Opinião | 25-04-2021 18:00

A foto que falta e a critica que faltava

A foto que falta e a critica que faltava
À margem

Longe vão os tempos em que a Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira era um ‘pot-pourri’ de diversidade e criatividade onde cabiam todos os apaixonados pela fotografia.

Longe vão os tempos em que a Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira era um ‘pot-pourri’ de diversidade e criatividade onde cabiam todos os apaixonados pela fotografia. Hoje em dia é um espaço cru e frio onde há fotos de imensa qualidade mas onde se sente que há uma linha a separar o genuíno do ensaiado, a rua do estúdio, o analógico do digital.
Foi aposta do município, há algumas edições, virar a página da bienal e torná-la num evento de outro nível. O que é pena, porque se sente saudades dos tempos em que os alunos das escolas de fotografia expunham os seus trabalhos e em que as pessoas da terra tinham oportunidade de mostrar as suas melhores imagens. Dos dias em que se podia apreciar imagens do concelho de Vila Franca de Xira e das suas raízes tauromáquicas. Tudo isto tem estado ausente das BF, não sabemos se por culpa de um júri que não gosta de ver toiros e imagens de rua ou de um município que tem receio de ir contra as elites culturais e de as ver a olharem de cima para baixo para a sua bienal que é das poucas, senão mesmo a única do género, que ainda se faz em Portugal dedicada à fotografia. Nenhum dos concorrentes é da zona. E as imagens com que vão a concurso não têm Vila Franca de Xira como cenário.


Um percurso de 32 anos e um prémio tão avultado dado aos vencedores - 5 mil euros - dão a Vila Franca de Xira, se ela quiser, o direito a fazer a bienal que toda a gente merece e quer ver. Não é que ver uma foto do talo de uma couve não seja uma imagem artística, mas certamente há muito mais alma nas imagens captadas nas ruas da cidade do que aquilo que hoje se vê dentro do Celeiro da Patriarcal.


Fazem falta, por exemplo, trabalhos semelhantes aos de Rui Palha ou Rui Caria na bienal vilafranquense. Imagens do senhor Fernando, da Póvoa de Santa Iria, que passa os dias a fotografar os pescadores. Imagens da vida que não sejam apenas as dos corredores culturais de Lisboa. As paredes do Celeiro da Patriarcal parecem assustadoramente vazias quando havia tanto mais para ser visto e mostrado.

Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira com uma centena de candidaturas

Para esta edição o município de Vila Franca de Xira, promotor da iniciativa, recebeu 90 candidaturas. Mostra está patente no Celeiro da Patriarcal com trabalhos de nove artistas.


Abriu ao público na sexta-feira,16 de Abril, a Bienal de Fotografia (BF) de Vila Franca de Xira que fica em exibição no Celeiro da Patriarcal durante um mês com entrada livre. A iniciativa, da responsabilidade do município, mostra a primeira de três exposições que estão programadas para este ano, desta feita a selecção de candidatos aos prémios do certame.

Esta edição da bienal, lançada há 32 anos, registou 90 candidaturas, mais 34 do que as recebidas na última edição, em 2018. Da escolha feita pelo júri resultou a exposição colectiva agora inaugurada, com imagens de Ana Janeiro, Beatriz Banha, Daniela Ângelo, Elisa Azevedo, Frederico Brízida, Hugo de Almeida Pinho, Humberto Brito, Teresa Huertas e Stefano Martini. A curadoria da exposição continua nas mãos de Sandra Vieira Jurgens e o júri é composto por António Pinto Ribeiro, Emília Tavares, Liliana Coutinho, Raquel Henriques da Silva e Tobi Maier. O vencedor - que levará para casa cinco mil euros - será divulgado no decurso do certame.

Além da exposição principal estão previstas outras duas, a serem inauguradas ao longo do ano no Museu Municipal de Vila Franca de Xira e na Fábrica das Palavras: a mostra “Deambulação e itinerância” e “Fotoutopia: Construções imaginárias”.

Na cerimónia de abertura o presidente do município, Alberto Mesquita, voltou a destacar a qualidade da iniciativa e o seu papel de destaque na fotografia nacional, notando que é uma importante porta de entrada para os artistas e fotógrafos nacionais.

Pandemia é um colete de forças

Humberto Brito, de Setúbal, é professor de teoria da literatura, e um dos participantes que viu as suas imagens chegarem à exposição. São 20 - de um conjunto de 59 - que mostram uma viagem a pé pela Estrada Nacional 10 entre Cacilhas e Setúbal. “Foi uma forma de lidar e de fazer as pazes com um território que percorro desde criança e que sempre me pareceu degradado e estragado de uma forma irreversível”, explica a O MIRANTE.


Já conhecia a BF de VFX e este ano decidiu arriscar e participar. “É um evento de grande dimensão”, elogia. Diz que a pandemia foi também arrasadora para quem gosta de fotografia. “Disparei muito em casa e ao redor de casa. Foi um colete de forças. Tive de retratar o que se passava no meu bairro”, diz.


A participar pela primeira vez está também Stefano Martini. Natural do Rio de Janeiro e fotógrafo de profissão, vive em Lisboa mas há muito que sonhava expor na bienal de VFX. “É uma referência na fotografia em Portugal”, diz o homem que, mesmo numa era de fotografias com telemóvel, garante que é possível ganhar a vida a fotografar. As suas imagens foram tiradas na margem sul. Tem fotos de Vila Franca de Xira mas essas não submeteu a concurso. “2020 vai ser o ano das fotos tiradas dentro de casa e nos jardins em frente à porta”, diz com um sorriso.

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