Opinião | 16-09-2021 12:00

Agroglobal já não vai ser o grande exemplo para a Feira da Agricultura

Pedro Torres anunciou, de forma inesperada, no último dia da Agroglobal, o fim da feira no Cartaxo e a sua passagem para Santarém com organização da CAP, que também organiza a Feira Nacional de Agricultura.

De 2014 a 2021 Pedro Torres e Manuel Paim ergueram uma feira agrícola no campo do Cartaxo que se tornou um caso de estudo. Dois empresários agrícolas, sócios e amigos, deitaram mãos a uma feira que este ano teve uma adesão nunca vista. “Isto parecia uma guerra civil”, reconheceu Pedro Torres num dos discursos de encerramento onde anunciou a passagem de testemunho para a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) e o fim da Agroglobal como a conhecemos até hoje.

Embora já há quatro anos se falasse na possibilidade de a CAP tomar conta da organização, o certo é que as conversações nunca surtiram efeito. Na altura O MIRANTE falou com as duas partes envolvidas no negócio: Pedro Torres admitiu as conversas mas pediu que guardássemos a informação privilegiada uma vez que as notícias podiam pôr em causa as conversações e um desfecho que, na sua opinião, seria bom para a cidade e para a Agroglobal.

Apesar de sondado noutras alturas nunca mais conseguimos actualizar a informação. De forma surpreendente, no final da maior edição de sempre da Agrobal, Pedro Torres e o presidente da CAP, Eduardo Oliveira e Sousa, subiram à vez ao palco para anunciar que o CNEMA vai tomar conta da feira.

Dos discursos que O MIRANTE publicou em vídeo, na notícia que escreveu na edição online, é fácil concluir que a cedência da organização da feira não foi tão simples como os organizadores fizeram parecer.

É certo que a feira vai passar para Santarém; e é certo e sabido que o CNEMA não tem estrutura nem pessoas para organizar uma boa Feira da Agricultura quanto mais uma Agroglobal que metia a Feira da Agricultura no bolso em termos de programa, de organização e participação dos agentes do sector. Não por acaso nasceu, cresceu e tornou-se uma das maiores organizações de sempre a promover o sector. A unanimidade gerada à volta desta organização nunca será possível com o CNEMA, gerido de costas viradas para a cidade e para as instituições da terra e da região.

Não é hora de pedir contas a quem tem a responsabilidade de organizar anualmente a Feira Nacional de Agricultura mas era meter a cabeça na areia não recordar que a CAP fez da Feira Nacional de Agricultura uma feira de vaidades. Manuel Paim e Pedro Torres mostram desde 2014 o que é uma feira agrícola e como se organiza e se ganha dinheiro sem cedências e facilidades (na feira da agricultura falasse em negócios paralelos no aluguer de pavilhões a artesãos, para além de outras manhas que foram instituídas ao longo dos anos e que fazem da Feira do Ribatejo um outro caso de estudo).

Pedro Torres reconheceu, no discurso em que entregou a Agroglobal ao CNEMA, que negoceia com os dirigentes da CAP desde a segunda edição da feira. Embora falem entre iguais (são pessoas que dominam o sector, andaram nas mesmas escolas, vão às mesmas festas, são parte de uma elite que domina uma parte da economia portuguesa), só cinco anos depois é que chegaram a um entendimento. Fica claro que esta cedência era a única forma do CNEMA não perder a curto prazo a Feira Nacional de Agricultura. Falta saber se Pedro Torres negociou a curto prazo a presidência do CNEMA como contrapartida por ter deixado de afrontar, com o seu trabalho a solo, a organização da Feira do Ribatejo.

Com o CNEMA a organizar a Agroglobal, certamente que a feira nunca mais atingirá a dimensão e o interesse das últimas edições; também é fácil concluir que quem organiza a Feira da Agricultura com um amadorismo desarmante não vai organizar a Agroglobal convidando os parceiros regionais e cativando aqueles que ao longo dos tempos se foram divorciando dos dirigentes da CAP.

Uma nota final que não devemos calar para darmos nomes aos bois, como se diz na gíria ribatejana: os dirigentes do CNEMA são tão bons a gerirem as suas organizações, e as suas azias pessoais, que ameaçam e retaliam contra empresários que falam a O MIRANTE de forma crítica nos suplementos que habitualmente editamos por ocasião da Feira da Agricultura. JAE.

Pedro Torres entrega Agroglobal ao CNEMA após namoro de anos que nunca admitiram

Desde as primeiras edições da Feira do Milho que a intenção de Pedro Torres, o fundador do certame que se transformou na Agrogobal e numa dimensão que estava a engolir a capacidade do seu criador, era a de entregar a organização ao CNEMA, dominado pela CAP. Mas tentou sempre esconder o namoro de anos que agora, no dia da transição, acabou por admitir.

O monstro que já era a feira Agroglobal estava a engolir o seu criador e Pedro Torres aproveitou o final do maior certame de sempre, depois de ter conseguido o reconhecimento do primeiro-ministro, para sair pela porta grande. Passou as dores de cabeça de organizar um certame de nível europeu para a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), dona do Centro Nacional de Exposições de Santarém e organizadora da Feira Nacional de Agricultura. Ambos tentaram passar a ideia que as duas feiras eram diferentes e complementares, negando a possibilidade de uma parceria, mas o certo é que nos bastidores, Pedro Torres e os seus amigos da CAP, com quem já tinha organizado a Feira do Toiro, alimentavam a fusão há muito tempo.

A passagem da Agroglobal para a CAP, através do Centro Nacional de Exposições (CNEMA), foi feita sem pompa nem circunstância, de uma forma meio tímida, no final da feira deste ano, meia hora depois da cerimónia de encerramento, com as individualidades já fora do recinto, sem jornalistas por perto e sem qualquer divulgação. O acordo sela um namoro que já decorria há muito tempo de forma muito discreta, mas que começou a levantar suspeitas quando nas últimas duas edições não havia dia em que dirigentes da CAP, sobretudo o presidente Eduardo Oliveira e Sousa, não se fizessem notar na Agroglobal.

A dimensão da Agroglobal em pleno campo, na freguesia de Valada, concelho do Cartaxo, atingiu uma dimensão tal que o próprio Pedro Torres comparou o cenário da sua montagem com uma guerra. E na sua intervenção salientou que chegou a uma altura em que as “infraestruturas começaram a ceder”. E também veio confirmar que logo do início da feira, na segunda edição, ainda chamada de Feira do Milho, conversou com os dirigentes do CNEMA e da CAP para que entrassem na organização.

Considerando que a feira tem um enorme potencial, o até agora organizador da Agroglobal salienta que é necessário levar a feira para um sítio em que existam condições para a alojar e onde possa receber mais gente. “Não crescer é andar para trás e aqui a feira não pode crescer”, salientou Pedro Torres, realçando que a transição não é um abandono e confirmando que sempre esteve ao lado da Feira Nacional de Agricultura e que o CNEMA é a entidade certa para assegurar o crescimento da Agroglobal.

O presidente do CNEMA e da CAP disse que a feira começou quase como brincadeira porque havia uma necessidade de o sector olhar para dentro. Eduardo Oliveira e Sousa desfez-se em elogios a Pedro Torres, dizendo que é um homem de carácter e honra que se dedica às coisas com espírito de missão, quando ainda há dez meses, numa entrevista a O MIRANTE dizia que nunca houve nenhuma tentativa para comprar a Agroglobal. “Falava-se que o CNEMA tinha oferecido 3 milhões, 5 milhões, depois já não era o CNEMA, era outra entidade... Isso não é verdade. Nunca fizemos qualquer proposta para aquisição da Agroglobal”. Afinal, segundo os dois protagonistas, a feira passa de mãos sem contrapartidas financeiras, com Oliveira e Sousa a dizer que nunca houve a perspectiva de Pedro Torres durante as conversas que tiveram de fazer um bom negócio com a projecção que a feira tem.

A Feira do Milho que evoluiu para a Agroglobal, em que para além do milho passou a abarcar as outras culturas, começou em 2009 e logo com uma centena de expositores num modelo completamente diferente, no campo, com demonstrações ao vivo. Há três anos o certame já tinha, segundo revelou na altura Pedro Torres, um orçamento a rondar o meio milhão de euros com uma grande procura de expositores, atingindo as 370 empresas e entidades presentes e que atingiu o pico de mais de 400 nesta que foi a última edição nos moldes em que foi idealizada.

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