Opinião | 29-09-2021 21:00

Executivo da Chamusca é um verbo de encher

O MIRANTE tem vindo a noticiar nos últimos anos alguns problemas de cariz social no concelho da Chamusca que não são resolvidos simplesmente porque os autarcas da Chamusca acham-se demasiado importantes e têm pouca vontade de trabalhar.

O MIRANTE tem vindo a noticiar nos últimos anos alguns problemas de cariz social no concelho da Chamusca que não são resolvidos simplesmente porque os autarcas da Chamusca acham-se demasiado importantes e têm pouca vontade de trabalhar. O conflito entre o Lar da Carregueira e o presidente e vice-presidente do município, Paulo Queimado e Cláudia Moreira, é um bom exemplo de como os egos dos autarcas valem mais do que o bem-estar de mais de uma centena de utentes que a instituição apoia.

Recentemente também vieram a público os problemas na direcção do Lar da Parreira que têm levado a Segurança Social frequentemente à instituição. Até agora não houve nenhum esclarecimento por parte da vice-presidente, que tem o pelouro da Acção Social, e, quando foi questionada em reunião de câmara, absteve-se de comentar publicamente.

Uma das histórias mais lidas do nosso jornal é a de Jorge Sequeira, o coveiro da Chamusca que trabalhou mais de dez anos sem receber ordenado ou qualquer ajuda de custo e sem ter direito a férias. Até hoje nunca lhe foi reconhecida a dedicação ao município, tendo sido arrumado para um canto, mesmo tendo alguns problemas de saúde mental. A notícia que conta a história de Alberto Trincão e do seu filho, infelizmente, já não deve surpreender os munícipes da Chamusca que vão assistindo impávidos e serenos ao definhar de um concelho que já foi considerado um exemplo para o distrito de Santarém em termos do trabalho realizado pela Rede Social.

Despejado pela Câmara da Chamusca depois de perder a casa num incêndio

A casa onde Alberto Trincão vivia com o filho Miguel, no Pinheiro Grande, ardeu totalmente há cerca de um ano. Foram realojados numa casa da junta de freguesia, mas há cerca de um mês receberam uma carta do município a exigir a entrega das chaves. Presidente da junta não reconhece legitimidade da câmara para despejar Alberto Trincão de uma casa que não lhe pertence.

Alberto Trincão, 44 anos, e o filho Miguel, de 16 anos, ficaram sem casa no dia 7 de Setembro de 2020. A habitação, na aldeia do Pinheiro Grande, foi devastada pelas chamas de um incêndio causado por um curto-circuito na divisão onde estava uma máquina de lavar roupa. No dia seguinte, a Câmara da Chamusca pediu à junta de freguesia para os realojar numa casa propriedade da freguesia que está há várias décadas sem utilidade. No final de Agosto, um ano depois do acidente, Alberto Trincão recebeu uma carta do município, assinada pelo presidente Paulo Queimado, a informar que tem de entregar, no prazo de 30 dias, as chaves da casa que pertence à junta. Estranhamente, o presidente da União de Freguesias da Chamusca e Pinheiro Grande, Rui Martinho, está completamente às escuras neste processo (ver caixa).

A tragédia que assolou a vida de Alberto Trincão tem como palco a casa que herdou dos pais, situada na Rua Isidro dos Reis, na aldeia do Pinheiro Grande, concelho da Chamusca. O incêndio deixou a habitação sem telhado e tudo o que lá estava dentro ardeu, nomeadamente roupas, electrodomésticos, mobília e material de trabalho e escolar.

“Quando cheguei a casa e vi que estava tudo a arder fiquei sem reacção; é um sentimento de impotência muito grande porque tinha ali a minha vida e a do meu filho”, desabafa a O MIRANTE. A roupa que tinha no corpo foi a mesma que utilizou no dia seguinte quando recebeu ajuda de alguns amigos e foi realojado de emergência numa casa pertença da União de Freguesias da Chamusca e Pinheiro Grande, em articulação com a câmara municipal que paga a luz, água e forneceu algum material.

Nessa altura, o coordenador técnico dos Serviços de Acção Social da autarquia prometeu que nos três meses seguintes o município iria arranjar forma de ajudar na reconstrução da casa. Segundo Alberto Trincão, a promessa nunca foi cumprida, assim como nunca mais voltaram a chegar perto da habitação.

A “Casa do Médico”, como é conhecida a habitação que lhe foi atribuída há cerca de um ano, fica a pouco mais de meia centena de metros da casa ardida. Há cerca de um mês, e para sua surpresa, Alberto Trincão recebeu do município uma carta a exigir a entrega das chaves no prazo de trinta dias uma vez que o período de cedência do edifício tinha sido ultrapassado. O munícipe admite que nos últimos meses falou com os serviços da câmara, que o incentivaram a encontrar uma casa, mas o facto de não ter um emprego fixo (na área da montagem de furos), condicionou as suas opções de escolha.

“A Câmara da Chamusca sugeriu-me algumas casas, mas não tenho capacidade para pagar rendas de mais de 300 euros por mês”, vinca, acrescentando que também chegaram a apresentar-lhe como solução dormir no palheiro onde tem alguns animais guardados. “Bem sei que não posso ficar nesta casa a vida toda, mas os nossos autarcas têm uma falta de sensibilidade enorme. Até hoje nunca falaram comigo, nem se preocuparam em cumprir a promessa que me fizeram de ajudar na reconstrução da casa”, refere.

O MIRANTE contactou a Câmara da Chamusca a pedir esclarecimentos, mas até ao fecho desta edição não obteve qualquer resposta.

Junta não sabia da ordem de despejo de uma casa que é sua

O presidente da União de Freguesias da Chamusca e Pinheiro Grande, Rui Martinho, mostrou-se surpreendido depois de O MIRANTE ter pedido esclarecimentos sobre a situação de Alberto Trincão. “Estou a saber pelo vosso jornal; não acho legal a câmara obrigar a entregar as chaves porque o edifício pertence à junta de freguesia”, afirma. O autarca diz que, se dependesse de si, Alberto Trincão nunca seria despejado. “A Casa do Médico é enorme e está fechada há décadas por não ter utilização. A junta não tem nada programado para o espaço, portanto não compreendo esta opção”, sublinha.

Rui Martinho confirma que a câmara se comprometeu em encontrar uma solução para realojamento até Dezembro de 2020, três meses após o acidente. Em Janeiro deste ano o autarca relembrou, em sessão de assembleia municipal, que ainda não tinha sido feita a prorrogação do prazo da cedência do edifício. Voltou a fazê-lo nas sessões seguintes, mas a sua preocupação nunca mereceu a atenção do executivo de maioria socialista.

Há cerca de dois meses, o coordenador técnico dos Serviços de Ação Social do município disse-lhe que o caso estava prestes a ficar resolvido e que Alberto Trincão iria ser realojado numa casa na freguesia da Carregueira. “Pelos vistos ninguém sabe muito bem o que está a ser feito e o que vai ser deste homem e do seu filho, nem mesmo os autarcas que têm responsabilidades de gestão e devem ter como prioridade o bem-estar das pessoas”, reforça.

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