Opinião | 30-09-2021 07:00

A tirania das eleições

O PCP não liga aos seus quadros, nem aos novos nem aos velhos, nem procura mobilizar pessoas que não gostem do Partido Comunista Chinês ou do chefe do governo venezuelano Nicolás Maduro.

As eleições autárquicas do passado domingo foram tiranas para o PCP e o Bloco de Esquerda. Se quanto a este último partido não há culpas para apontar, porque o BE é literalmente um partido de Lisboa e do Porto, que vive de meia dúzia de estrelas do firmamento da esquerda caviar (com raras excepções), já quanto ao PCP a coisa pia mais fino. Os comunistas coligados os Verdes, que só existem graças ao PCP, têm uma tradição de poder nas autarquias que vai ficar na História deste último meio século. Infelizmente para o partido, e para a democracia, o PCP está a deixar-se morrer por culpa daquilo que era a sua grande mais valia; a proximidade dos dirigentes com as populações e com os seus interesses mais importantes e mais imediatos. Quase meio século depois do 25 de abril, os dirigentes nacionais do PCP aburguesaram-se e entregaram o partido no interior do país aos profissionais dos sindicatos, que são incapazes de organizarem uma lista de compras de supermercado quanto mais uma força política para concorrer às autarquias.

No Ribatejo o PCP já só tem a câmara de Benavente e, provavelmente, só até 2016. A história que ficou para trás com a reforma de Sérgio Carrinho, António Mendes e agora Carlos Coutinho ( tão comunistas como eu ( não) sou ), é fácil de explicar. O PCP não liga aos seus quadros, nem aos novos nem aos velhos, nem procura mobilizar pessoas que não gostem do Partido Comunista Chinês ou do chefe do governo venezuelano Nicolás Maduro. Na Chamusca e em Constância, para dar dois exemplos que citei, o PCP não soube renovar-se, os comunistas ou os simpatizantes do partido não mexem uma palha para recuperarem o prestígio ganho e acumulado ao longo dos anos de trabalho em favor das populações. Os gajos em que o PCP confia a tarefa de organizar as tropas vivem literalmente na clandestinidade nas suas próprias terras e, regra geral, são pessoas que não mostram os dentes nem trabalham em favor das associações ou coletividades, como sempre foi tradição nos militantes comunistas. Os que resistem parecem personagens de cinema: uns cheios de raiva e desesperados por lutarem contra moinhos de vento, e os outros, os que andam com a foice e o martelo na testa, escondidos em casa onde montaram oficinas de recuperar imagens de Che Guevara, Fidel Castro e Catarina Eufémia.

Jerónimo de Sousa e António Filipe, para falar de dois dirigentes nacionais que estão a contribuir para levar o PCP à condição de partido insignificante a nível autárquico, são dois personagens de televisão como eram os bonecos do Contra Informação da RTP. Eles estão em todos os noticiários e programas de entrevista e de entretenimento das televisões, mas nunca estão no terreno; nem eles nem os camaradas do Comité Central que, segundo dizem os números, têm uma fortuna para gerir; o PCP é o partido mais rico do mundo em património, e em dinheiro a prazo nos bancos; no resto está quase apagado do mapa pelo Chega e companhia; no Ribatejo mas também no Alentejo. Só no concelho de Lisboa, tal como o BE, o PCP ainda tem uma força que faz dele um partido respeitável. Álvaro Cunhal deve estar a mexer-se no túmulo.


Escolho Jorge Faria, que ganhou o Entroncamento por 60 votos, para deixar aqui um exemplo de um autarca que governa com os punhos e dialoga com a população com os cotovelos. Um político que faz dois mandatos numa cidade, que tem tudo para dar certo, e ao fim de oito anos só fica no poder graças a 60 eleitores e a Nossa Senhora de Fátima, ou vai acabar os quatro anos de poder a caminhar para ao psicólogo, ou é certo que vamos ter eleições antecipadas na cidade dos comboios. JAE.

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