A (de) formação desportiva
Se todas as crianças e jovens tiverem acesso a uma verdadeira formação desportiva, quando chegarem a adultos podem nem sequer vir a praticar qualquer desporto, mas serão certamente melhores cidadãos, em todos os sentidos: melhores profissionais, melhores pais, melhores companheiros e, inclusive, melhores espectadores.
A formação desportiva, no verdadeiro sentido da palavra, é absolutamente essencial para a formação do indivíduo como cidadão. Acontece que, em Portugal, não só não existe formação desportiva como está implantada e generalizada a cultura da deformação desportiva.
A formação desportiva implica, desde logo, que todas as crianças e jovens, independentemente das suas aptidões desportivas, tenham acesso à mesma. É mais importante para a formação do cidadão a formação desportiva do que qualquer outra disciplina, designadamente o Português e a Matemática.
A formação desportiva destina-se, importa salientar, a formar cidadãos e não a formar Cristianos Ronaldos ou Messis. Ou seja, destina-se a cultivar nas crianças e nos jovens a cultura do fair play, do respeito pelos outros, da lealdade, do trabalho em equipa, da superação, do sacrifício, da ambição e da aceitação, sem dramas, da vitória e da derrota como elementos naturais da própria competição e da vida.
Os vencedores são pessoas que perderam muitas vezes. A maioria dos portugueses confunde o carácter do vencedor, que é moldado na adversidade, com o carácter dos lambe-botas, que têm por hábito colar-se aos vencedores. Como disse Churchill, «O sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder entusiasmo.»
Se todas as crianças e jovens tiverem acesso a uma verdadeira formação desportiva, quando chegarem a adultos, podem nem sequer vir a praticar qualquer desporto, mas serão certamente melhores cidadãos, em todos os sentidos: melhores profissionais, melhores pais, melhores companheiros e, inclusive, melhores espectadores.
É óbvio que a formação desportiva, tal como acontece nos países civilizados, devia ser uma obrigação do Estado e da escola pública. Mas o Estado português ainda não leu Os Maias e, por isso, continua agarrado à educação portuguesa do Eusebiozinho que tinha horror às correntes de ar e que decorava, agarrado às saias da mamã, a cartilha dos lugares comuns e do politicamente correcto que lhe impingiam na escola e de que, hoje, a disciplina “Cidadania e Desenvolvimento” é um bom exemplo.
E como não há, nas escolas, verdadeira formação desportiva, com treinos a sério e verdadeiras competições, entre turmas e entre escolas, cabe às autarquias financiar os clubes para esse efeito. Acontece que as autarquias, sob o pretexto de financiar a formação, acabam por financiar as equipas seniores dos clubes, pagando os salários dos jogadores semi-profissionais contratados fora do concelho e da região. Por outro lado, nos escalões de formação, os clubes, em vez de formarem, deformam, cultivando, nas crianças e nos jovens, o fanatismo, o sectarismo, o ganhar a qualquer preço, a falta de respeito pelos adversários, a simulação de faltas, como se o objectivo da formação desportiva fosse formar jogadores destinados ao Benfica, Sporting e Porto.
Além disso, seria preferível que, nas camadas jovens, Benfica, Sporting e Porto jogassem apenas entre eles, com as equipas A, B, C e D do que fazer competições totalmente desequilibradas em que as melhores equipas dão sistematicamente cabazadas às outras equipas, porque isso não é bom nem para quem ganha, nem para quem perde. Toda a competição, para ser competição, tem de ter um mínimo de equilíbrio.