Opinião | 21-01-2022 10:10

A abstenção é uma arma

Santana-Maia Leonardo

Não existe no espectro político português um único partido que defenda um modelo de desenvolvimento para o país assente em cidades médias, com um programa sério de combate à desertificação do interior e que passaria, necessariamente, por uma nova reorganização administrativa, com o fim dos colunatos de Lisboa, e pela transferência de serviços de Lisboa para o Interior.

Portugal já era, em 1974, um país bastante desequilibrado social e territorialmente. Mas a verdade é que o regime democrático, apesar de andar sempre com a coesão social e territorial na boca, tornou esse desequilíbrio absolutamente irreversível. Hoje, a região do mundo que mais se assemelha a Portugal é o Estado de Israel, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. O Estado de Israel é a República de Lisboa (ou seja, a estreita faixa litoral Lisboa-Porto), a Cisjordânia é o interior centro e norte e a Faixa de Gaza é o Alentejo.

A República de Lisboa é uma região rica e próspera, com instituições democráticas, estado de direito e comunicação social livre. Por sua vez, o resto do território é extremamente pobre, estando a democracia, o estado de direito e a comunicação social ao nível da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, permitindo-se todos os abusos e atropelos à lei, perante o silêncio cúmplice da comunicação social de Lisboa. Além disso, tal como acontece na Cisjordânia, as autarquias locais funcionam, no interior do país, como verdadeiros colonatos de Lisboa, sendo o seu único objectivo garantir o controlo político destes territórios.

Actualmente, só a região de Lisboa elege mais deputados do que Beja, Évora, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Viseu, Bragança e Vila Real juntos. Além disso, o interior está dividido em pequenos círculos eleitorais com o objectivo de impedir o surgimento de movimentos regionalistas com expressão e peso que lutem pelo Alentejo e pelo interior contra o poder despótico e centralista de Lisboa.  

Portalegre, por exemplo, elege apenas dois deputados, o que significa que os cidadãos do distrito de Portalegre não têm direito a voto, uma vez que os colunatos de Lisboa garantem, automaticamente, a eleição dos seus candidatos.

É, por isso, natural que o sonho e o destino de qualquer jovem que hoje nasça na Faixa de Gaza se resuma a ir viver e trabalhar para Lisboa ou para o estrangeiro. E os poucos que por aqui ficam são olhados com algum desdém como se tivessem algum defeito.

PS e PSD são hoje duas faces da mesma moeda e com a mesma política de esvaziamento e empobrecimento do interior em prol da região de Lisboa. Até porque, à região rica de Lisboa, convém a pobreza do Alentejo e do interior para Lisboa poder reclamar na UE as sucessivas bazucas com que vai, depois, cavando cada vez mais o fosso entre a região de Lisboa, uma das mais ricas da UE, e as regiões pobres do Alentejo e do interior do país.  

Todas as reformas estruturais levadas a cabo pelos governos socialistas e sociais-democratas foram nesse sentido, assim como serão todas aquelas de que por aí se fala e que aguardam pelo próximo Governo, seja ele qual for, designadamente uma Regionalização assente nas autarquias locais e nas CCDR.

Quando se trata de fechar um serviço no interior, o argumento dos lisboetas é que Portugal é um país pequeno e Lisboa fica perto de tudo. Mas quando se quer transferir um serviço de Lisboa para o interior, aqui d’El Rei que é muito longe, como se a distância entre Portalegre e Lisboa não fosse a mesma que entre Lisboa e Portalegre.

Não existe no espectro político português um único partido que defenda um modelo de desenvolvimento para o país assente em cidades médias, com um programa sério de combate à desertificação do interior e que passaria, necessariamente, por uma nova reorganização administrativa, com o fim dos colunatos de Lisboa, e pela transferência de serviços de Lisboa para o Interior. E, como não existe esse partido, nem existem condições objectivas para existir, por força dos mini-círculos eleitorais controlados pelos colunatos de Lisboa, não tenho em quem votar, nem quem me represente. Sendo certo que a abstenção em massa é, hoje, a única forma de todos aqueles que, como eu, vivem nos territórios sem voz e sem verdadeiro direito de voto incomodarem os partidos de Lisboa, à semelhança do que aconteceu com os movimentos pacifistas e pelos direitos civis. Caso contrário, não faziam tantos apelos ao voto, nem que seja em branco ou nulo. Parafraseando José Mário Branco, “A abstenção é uma arma. Contra quem, Camaradas? Contra a Hipocrisia!

Santana-Maia Leonardo

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