Opinião | 18-02-2022 09:16

É díficil explicar o óbvio

Santana-Maia Leonardo

Paris, Londres, Madrid, Berlim e Roma são muito maiores do que Lisboa e Porto. Qual é que é a diferença? Nos outros países da Europa, as outras cidades e regiões, no seu conjunto, têm mais deputados do que as duas maiores cidades de cada país, ao contrário do que sucede em Portugal.

Como dizia Clarice Lispector, “o óbvio é a verdade mais difícil de enxergar”. E, também por esta razão, é o mais difícil de explicar. Mas eu vou fazer um esforço, porque já estou farto de ouvir a ladainha dos nossos comentadores políticos e desportivos sempre a fazer apelo à urgência das reformas inadiáveis, quando Portugal e a liga portuguesa são irreformáveis por natureza. Como é óbvio.

Por que razão Benfica, Sporting e Porto fazem o que querem e lhes apetece, ao contrário do que sucede em todas as outras ligas europeias, onde também existem não só clubes grandes, mas muito maiores do que qualquer clube português?

É muito fácil perceber porquê. Basta saber somar 2 + 2. É que, nas outras ligas europeias, os clubes mais pequenos, no seu conjunto, são maiores do que os maiores clubes pelo que é fácil, aos presidentes e às direcções das ligas, imporem regras de solidariedade, disciplinares e proibições duras aos clubes maiores. O presidente da liga espanhola está quase sempre em guerra aberta com o Real Madrid e o Barça. Este ano, por exemplo, não permitiu a inscrição de Messi. Isto era impossível em Portugal onde Benfica, Sporting e Porto chegam a inscrever 200 jogadores.

Aliás, isto é tão evidente que os mesmos comentadores desportivos que tanto se queixam da falta de competitividade da liga portuguesa, são os mesmos que reduzem, no seu comentário desportivo, a liga portuguesa aos jogos do Benfica, Sporting e Porto, como se os outros clubes não existissem. E, em boa verdade, não existem.

Barça e Madrid têm 33% dos adeptos espanhóis e concentrados na região de Madrid e Catalunha. O United, Liverpool, Chelsea e City não chegam aos 30% de adeptos ingleses e estão concentrados em torno das suas cidades.

Ora, nestas circunstâncias, é extremamente fácil aos presidentes e às direcções das diferentes ligas europeias impor regras aos clubes grandes, mas que representam apenas 30% dos adeptos, quando se está do lado dos clubes que representam a maioria dos adeptos (70%) e a maioria das cidades de um país.

Em Portugal, pelo contrário, Benfica, Sporting e Porto representam 95% dos adeptos espalhados por todo o país, o que significa que não há ninguém que seja capaz de lhes impor o que quer que seja, porque eles representam a totalidade dos adeptos, das cidades e das regiões do nosso país.

O mesmo se passa a nível da governação. Paris, Londres, Madrid, Berlim e Roma são muito maiores do que Lisboa e Porto. Qual é que é a diferença? É que, nos outros países da Europa, as outras cidades e regiões, no seu conjunto, têm mais deputados do que as duas maiores cidades de cada país, ao contrário do que sucede em Portugal onde as regiões de Lisboa (Lisboa e Setúbal) e Porto (Porto, Aveiro e Braga) têm, praticamente, a totalidade dos deputados.

Ora, como qualquer pessoa percebe, numa democracia, assim como num liga de futebol, não é possível exigir aos dirigentes políticos e desportivos que afrontem a maioria que os suporta, apoia e elegeu, sob pena de caírem, de imediato, do poleiro. Como é óbvio.

Não vale, pois, a pena continuar com estas ladainhas de nos querermos comparar e aproximar dos modelos europeus, quando a configuração do nosso parlamento e da nossa liga não permitem qualquer reforma estrutural, porque o peso dos votos está precisamente do lado das regiões e dos clubes mais poderosos, que não estão interessados, como é óbvio, em perder ou ceder parte do seu poder.

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