Opinião | 23-09-2022 13:39

A Íris

Santana-Maia Leonardo

Esta é história de uma cadela chamada Íris, de um cigano que a roubou, de um vizinho “autista”, de um pai de boa memória que foi amamentado por uma cigana, de uma viagem à Margem Sul, e de como se resolve um roubo de um animal, sem ter que recorrer à polícia, sabendo usar apenas os conhecimentos e as influências que vão ficando da vida que vivemos.

A Íris morreu no dia 29 de Abril de 2014. Era uma cadela podenga de pêlo cerdoso que apareceu ferida, perto da minha casa, em Março de 2006, na companhia de outro podengo, o Petit, e que viria a ser a mãe do Sebastião, um dos meus melhores amigos, também já falecido.

Na altura, já tinha onze cães, mas a minha filha insistiu tanto para que os deixasse levar para o quintal do escritório, jurando-me que, desta vez, era ela que ia tratar deles, que acabei por aceder, acabando, mais uma vez, por ser eu a tratar deles. É sempre a mesma conversa!

A Íris tem, no entanto, uma história muito peculiar que vão gostar de conhecer.

No dia 28 de Março de 2008, tinha um julgamento na cidade da Maia pelo que tive de regressar de Nova Iorque no dia 27, seguindo directamente do aeroporto de Lisboa para a cidade da Maia. Como tantas vezes sucedia naquele tempo, a viagem foi inglória, porque o julgamento foi, mais uma vez, adiado.

Quando regressava para Ponte de Sor da Maia (uma viagem de 300 Km), recebi um telefonema angustiado da minha filha, informando-me de que a Íris tinha sido roubada e que um vizinho lhe disse que tinha sido por um cigano no dia anterior.

Faço aqui um parêntese para dizer o seguinte: o referido indivíduo saltou o muro do meu escritório e roubou-me a cadela. Mas o meu vizinho viu o indivíduo a saltar o muro e roubar-me a cadela e não fez nada para o impedir, nem se preocupou sequer em avisar a minha filha ou a minha funcionária. Se fosse ao contrário, podem ter a certeza de que não roubava o cão do meu vizinho, porque eu não deixava. Fechado o parêntese, continuemos a nossa história e a nossa viagem.

A minha avó paterna morreu, quando o meu pai nasceu, e quem amamentou o meu pai foi a Rita Cigana, a quem o meu pai, enquanto viveu, tratou sempre por Mãe Cigana. Por esse motivo, ainda hoje ando a pagar o leite a prestações.

Um dos netos da Rita Cigana era o Gaiulo, já falecido, que eu conhecia muito bem, uma vez que éramos amigos de infância. Por isso, pedi à minha filha para me enviar o número dele. Quando recebi o número, liguei-lhe, disse-lhe o que tinha acontecido e ele perguntou-me: “ A que horas é que isso foi e como é que era o cigano?

Foi por volta do meio-dia e era um indivíduo alto e de barbas ”, respondi.

Então foi o M… da cidade X ”, respondeu, de imediato, o Gaiulo (não vou dizer nem o nome do indivíduo nem o nome da cidade da Margem Sul, porque as pessoas ainda estão vivas e não quero estigmatizá-las).

Arranja-me o número de telefone dele ”, pedi-lhe.

Passado pouco tempo, o Gaiulo ligou-me e disse-me: “ Não consegui o número de telefone dele, mas já falei com o irmão dele que vive na vila Y [uma pequena vila alentejana do distrito de Portalegre] , que ligou para o irmão e que este lhe disse que não tinha lá a cadela ”.

Dá-me lá o número do irmão.”

Tudo isto ia acontecendo, recordo, em plena viagem Maia – Ponte de Sor. Liguei para o tal o irmão e, depois de me identificar, disse-lhe: “ Diga ao seu irmão que eu vou a caminho do acampamento dele buscar a cadela.”

Já falei com o meu irmão e ele disse-me que não tem lá a cadela.”

Diga ao seu irmão que, se ele não tiver lá a cadela, quando eu lá chegar, vai ser pior para ele, porque vai passar a ter rusgas todos os dias, pode ter a certeza.”

Isso é uma declaração de guerra à minha família ”, disse-me.

A cadela é da minha família ”, respondi-lhe e desliguei-lhe o telefone.

Entretanto pedi à minha filha para ligar para o posto da PSP da tal cidade da Margem Sul e enviar a foto da cadela. Quando estava a chegar à tal cidade da Margem Sul, recebi um telefonema da PSP a informarem-me de que já lá tinham a cadela. Segundo os agentes da PSP, que recolheram a cadela no acampamento, foi-lhes dito que não sabiam como a cadela lá tinha ido parar.

O senhor quer apresentar queixa? ”, perguntaram-me.

Claro que não. O mais provável era a cadela ter vindo ver a família.

Com efeito, se a cadela era da minha família, também era da família deles por afinidade de leite.

Concluindo: tudo está bem, quando acaba bem. E depois de um desvio pela Margem Sul, pude finalmente regressar a casa com a minha amiga Íris.

Santana-Maia Leonardo

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