Opinião | 28-09-2022 18:00

Bonnie & Clyde

João Louro foi violentamente agredido com um tacho dentro da sua própria casa e perdeu a vista direita

À margem

As autoridades policiais acreditam que o casal que agrediu e roubou João Louro o fez de forma planeada e consciente. Primeiro aproveitando a oportunidade dada pela ingenuidade do morador em permitir que estes entrassem na sua casa para fazer obras, e quase um ano depois, já em Alhandra, para os receber acreditando que se tratava de gente amiga. O caso remete para o clássico casal romântico de criminosos americanos Bonnie Parker e Clyde Barrow que, durante a grande depressão, cometeram dezenas de assaltos e homicídios. Com uma grande diferença: o casal que agrediu João Louro safou-se, continua a viver tranquilamente e a desfrutar dos rendimentos provenientes das peças de ouro que sacaram da casa do velho taxista. Num mundo com tanta tecnologia, de pagamentos digitais e rastreios GPS, é inacreditável como quase um ano depois continuam à solta. Ainda não é tarde para as polícias mostrarem trabalho e apanharem os suspeitos, que até têm mandado de detenção emitido pelo tribunal. O que aconteceu a João Louro pode um dia destes acontecer com outra pessoa. Só se espera que não seja tarde demais.

Casal que espancou taxista de Alhandra e Alverca continua a monte

João Louro não morreu por milagre. Foi barbaramente espancado na sua própria casa por um jovem casal que lhe levou dinheiro e peças de ouro. Até hoje o processo está encalhado no DIAP de Vila Franca de Xira porque os agressores fugiram para o estrangeiro e nunca mais foram apanhados.

Revolta, indignação e medo são alguns dos sentimentos com que vive João Louro, 78 anos, rosto conhecido da praça de táxis de Alverca do Ribatejo e de Alhandra que, de um dia para o outro, viu a sua vida mudar radicalmente. Em Novembro do ano passado o taxista foi brutalmente espancado na sua própria casa, em Alhandra, por um casal de 26 anos que lhe limpou 600 euros em dinheiro, relógios e várias peças de ouro no valor de vários milhares de euros.
O ataque, diz, não lhe tirou a vida por milagre mas deixou-o com sequelas, incluindo a perda total da vista direita. Para sua tristeza nem a justiça parece ajudar, com o processo encalhado no Departamento de Investigação e Acção Penal de Vila Franca de Xira (DIAP) há quase um ano, porque os agressores conseguiram fugir e nunca mais foram apanhados, apesar do mandado de detenção emitido pelo tribunal.
Natural de Olhalvo, Alenquer, João Louro foi taxista 22 anos em Alhandra e estava na praça de táxis de Alverca há duas décadas, onde ainda tem um empregado ao serviço.

Anatomia do crime
O caso remonta a 2020 quando o casal de agressores é contratado por João Louro para fazer obras numa casa onde este vivia em Alverca antes de se mudar para Alhandra. Foi a oportunidade ideal para verem o que João Louro tinha em casa. “Paguei tudo o que devia e, ao contrário do que se pensa e diz, não houve qualquer ajuste de contas. Foi um assalto e agrediram-me para matar”, lamenta a O MIRANTE.
Em Novembro do ano passado, o jovem casal bateu à janela de João Louro para o visitar já na casa onde vive actualmente em Alhandra. “Recebi-os em ambiente festivo, não suspeitava de nada. Sentaram-se à mesa, servi-lhes um café, vi o rapaz a levantar-se e depois parecia um sismo e que as vigas do prédio estavam a cair-me sobre a cabeça”, recorda.
Sofreu vários golpes profundos com um tacho que tinha na cozinha e ficou no chão numa poça de sangue. Nesse momento o casal agarrou numa toalha e tentou asfixiar a vítima ainda que sem sucesso. “Fui militar muitos anos e consegui dar luta apesar dos ferimentos”, recorda. Apesar disso, as forças faltaram-lhe, só teve tempo de ver o casal a remexer o seu carro e os seus pertences e a fugir. “Fiz um esforço imenso para não desmaiar. Se desmaio tinha morrido ali, eles deixaram-me para morrer”, recorda, em lágrimas.
Chamou os bombeiros e o estado em que estava chocou os socorristas. “Estava irreconhecível e tinha o olho pendurado. A minha cara era uma chaga completa. Com os bombeiros vieram dois agentes da Polícia de Segurança Pública que nem entraram na casa e ainda disseram que tinha sido uma pequena escaramuça”, critica. Foi levado de urgência para o Hospital de São José, em Lisboa, e apesar das tentativas dos cirurgiões o olho não teve salvação. Só depois da filha apresentar queixa teve início a intervenção da investigação criminal da PSP.

O crime compensa
Há um ano que o processo de investigação está encalhado no DIAP de VFX porque os arguidos nunca foram capturados apesar de estarem referenciados e identificados. As autoridades policiais desconhecem o seu paradeiro e suspeita-se que fugiram para o estrangeiro. No ar ficou o sentimento de que o crime compensou. O MIRANTE contactou o advogado de João Louro que confirma que ainda não foi deduzida qualquer acusação no caso. “Era uma pessoa muito alegre e de bem com a vida e quem me agrediu continua à solta e não vejo ninguém a fazer um esforço para os agarrar. Passei a viver com muito medo, meti uma corrente na porta e praticamente deixei de sair de casa. Passei a viver isolado e ainda mais sozinho”, lamenta.
João Louro já prestou declarações no Ministério Público para memória futura. “Caso morra e eles venham a ser apanhados espero que sejam julgados e paguem pelo que me fizeram. Até hoje não foi feita justiça”, critica. Tem dois filhos, e toca guitarra, órgão, bateria e harmónica, estando ligado a um grupo de música popular de Alverca. Vive sozinho desde que a mulher morreu há três anos vítima de Acidente Vascular Cerebral.

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