Opinião | 04-11-2022 08:34

O Bolt e a Messi

Santana-Maia Leonardo

Durante vinte anos, ganhei ao meu filho todos os nossos jogos de futebol de praia. Sempre que íamos os dois à bola, era eu que ficava com ela. Até que houve um dia em que fomos os dois à bola e foi o meu filho que ficou com ela. Nesse dia, percebi que a minha vida tinha entrado na fase descendente. A partir daquele dia, foi sempre a descer e a uma velocidade vertiginosa.O Bolt é, aliás, muito parecido com o meu filho. Foi o único cão que tive que me consegue tirar do sério e o único que tive de proibir de entrar na minha casa.

O Bolt é um ratonero bodeguero andaluz e a Messi uma podenga pequena de pêlo curto. E são um daqueles casais modernos que vivem para desfrutar da vida, sem fazer tenções de constituir família. “ Quem tem filhos tem cadilhos.” E, nos tempos que correm…

Não podem, no entanto, viver um sem o outro. Se, por qualquer motivo, os tenho de separar, designadamente, para ir ao veterinário, é uma tragédia. Têm sensivelmente a mesma idade e quis o destino que se conhecessem na minha casa. Messi era uma cadela vadia, que aprendeu no mato o que custa a vida, enquanto o Bolt é um cão de boas famílias, um copinho de leite a quem qualquer galdéria dá a volta a cabeça. Felizmente, deu com a Messi que se apaixonou por ele, caso contrário tinha-o deixado a pão e água.

Mas comecemos pelo princípio.

No dia 4 de Março de 2020, entrei no veterinário para marcar a vacinação do Paquito e do Bolt e saltou-me ao caminho uma podenga pequena de pêlo curto. Sempre gostei destes cães e esta cadela também simpatizou comigo.

Eu gostava de ficar com ela, mas não posso ”, queixou-se a sua acompanhante. “É muito meiguinha. Se eu pudesse, ficava com ela. Apareceu-me lá na minha casa, mas já tenho muitos cães e não tenho dinheiro para as vacinas. O seu destino é a adopção. Conhece alguém que queira adoptar uma cadela?

Não acredito no destino, mas sempre acreditei no acaso. E foi logo ali que a baptizei. Só podia ser Messi. Quer pelo seu aspecto franzino, quer pela forma como nos driblava, quer por homenagem ao melhor jogador que eu alguma vez vi jogar e que se preparava para deixar o meu clube.

Por sua vez, o Bolt nasceu no dia 9 de Dezembro de 2019 e é precisamente um daqueles cães que a minha idade não aconselha a adoptar. No entanto, o meu genro sempre sonhou ter um cão desta raça.

Quando vi o cão, achei-o muito engraçado, apesar de não ter achado boa ideia de que alguém que vivia num apartamento adoptasse um cão que não nasceu para viver fechado em casa. O primeiro ano de vida do Bolt, nome escolhido pelo meu genro por causa do “Bolt, Supercão”, o herói dos desenhos animados, foi passado entre o apartamento da minha filha e o meu quintal. Mas tornou-se evidente que este cão não ia aguentar muito tempo a viver num apartamento. E, quando fez um ano de idade, não esteve com meias medidas: agarrou nas malas e mudou-se para a minha casa onde residia a sua amada Messi e o seu grande amigo Tintim, um fox terrier que tinha toda a paciência do mundo para o aturar.

Na altura, o Tintim tinha dez anos de idade e alinhava em todas as brincadeiras do Bolt que pareciam não ter fim, porque a sua energia era inesgotável. Em todo o caso, o Tintim, apesar de ter dez anos de idade, chegava sempre primeiro à bola que eu atirava. E foi assim durante dois anos até que houve um dia em que o Bolt apanhou primeiro a bola. E, a partir desse dia, nunca mais o Tintim a conseguiu apanhar.

Esse momento trouxe-me à memória os meus jogos de futebol com o meu filho na praia. Durante vinte anos, ganhei ao meu filho todos os nossos jogos de futebol de praia. Sempre que íamos os dois à bola, era eu que ficava com ela. Até que houve um dia em que fomos os dois à bola e foi o meu filho que ficou com ela. Nesse dia, percebi que a minha vida tinha entrado na fase descendente. A partir daquele dia, foi sempre a descer e a uma velocidade vertiginosa.

O Bolt é, aliás, muito parecido com o meu filho. Foi o único cão que tive que me consegue tirar do sério e o único que tive de proibir de entrar na minha casa. Uma pessoa pensa que vai jantar frango assado e, quando se vai sentar para saborear uma perna de frango, já o frango se anda a passear pelo quintal na boca do Bolt. E se pensa que tem um par de sapatos para calçar, o mais certo é não encontrar nenhum. Mesmo no quintal, está sempre com invenções. Uma pessoa pensa que tem a mangueira a regar e mal se descuida tem o quintal alagado, porque o menino Bolt lembrou-se de arrancar a mangueira da torneira. E, depois, é tal e qual como o meu filho, quando eu o confronto com a situação, em vez de assumir a responsabilidade e pedir desculpa, põe aquela cara de sportinguista em que os outros é que são os culpados e ele não tem culpa nenhuma. E o pior é que a sua mãezinha, sem saber sequer o que se passou, vem logo, em seu socorro, de arma em punho.

No entanto, tal como acontece com o meu filho, toda a gente gosta do Bolt. O cão é simpático, brincalhão, extremamente inteligente, resolve rapidamente qualquer equação, gosta de andar sempre na água, é rápido como o velocista Bolt e dá-se com toda a gente… O meu sobrinho, quando vem a minha casa, só quer o Bolt, porque é o único que lhe dá troco e atenção.

Quanto à Messi, é muito parecida com a minha irmã. Sempre nos demos bem, mas eu e minha irmã somos o dia e a noite. Ou melhor, a minha irmã é o dia e eu sou a noite. A minha irmã sempre foi uma menina muito prendada, inteligente, trabalhadora, estudiosa e organizada. Deitava-se cedo e levantava-se cedo. Foi sempre a melhor aluna, na escola e na Universidade. E quando quer uma coisa, move montanhas.

Eu, pelo contrário, deitava-me, quando a minha irmã se levantava, nos dias em que me deitava. Nunca perdi tempo a estudar mais do que era preciso para passar de ano. E às aulas só ia muito raramente para matar saudades dos meus colegas e, em regra, quando chegava, a aula já tinha terminado. Resumindo: a minha irmã era a filha que todos os pais gostavam de ter e eu era a má companhia contra quem os nossos pais nos preveniam.

A Messi é, de certa forma, a encarnação da minha irmã. É uma cadela muito prendada e inteligente. E, apesar de ser muito meiguinha com as pessoas, não é para graças com os outros cães. Gosta de se dar ao respeito. É sempre a primeira a ser servida e, quando quer uma coisa, é determinada. Todos os dias vai bater à porta da minha mãe e não se cala, enquanto a minha mãe não lhe abre a porta e lhe dá um bocado de queijo. E no quintal, tem de ser tudo como ela quer. O Bolt e o Tintim têm de baixar a bola. O respeitinho é muito bonito e o machismo, como diz a Messi, foi chão que deu uvas. Agora quem manda são as mulheres. E a verdade é que também eu me tenho de sujeitar aos caprichos da Messi, porque ela tem aquela qualidade tão feminina de nos conseguir endrominar. A Messi faz jus ao nome. Finta-me de toda a maneira e feitio, sem que eu consiga dar conta. Além disso, tem uma particularidade curiosa: adora estar à janela a ver o que se passa na rua.

De todos os cães que eu tenho e tive, o Bolt e a Messi são aqueles que melhor sobreviverão sem mim. Dificilmente encontrarão alguém que lhes dê tanta atenção, mas são um casal moderno que tem uma enorme capacidade de adaptação às circunstâncias. E como disse Darwin, “ Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças .“

Ao contrário do Bolt, da Messi e da minha irmã, eu sou um dinossauro. O pior castigo que me podiam dar era obrigar-me a viver eternamente. Sou totalmente incapaz de me adaptar ao novo mundo do século XXI com os seus novos valores, vivências e gostos. Como diziam os antigos, quem planta um sobreiro pensa nos netos, quem planta um pinheiro pensa nos filhos e quem planta um eucalipto só pensa em si próprio. E hoje vivemos na era dos plantadores de eucaliptos onde não há lugar para pessoas que pensam como eu.

A minha pátria é hoje a minha casa. E é aqui que aguardo tranquilamente a minha hora, enquanto vou cuidando do meu jardim.

Santana-Maia Leonardo

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