Opinião | 08-11-2022 12:00

O populismo do Chega

A presença de Paulo Pedroso como orador convidado para a sessão solene de abertura do ano lectivo do Politécnico de Santarém deixou um rasto de polémica.

À Margem

A intervenção de Pedro Frazão demonstrou mais uma vez a visão que o Chega tem sobre o sistema judicial e a aplicação da Justiça em Portugal. Com a intervenção que proferiu na reunião de câmara de Santarém demonstrou que, sendo também deputado da República, não confia no sistema judicial dessa mesma República e continua a classificar como criminoso um homem que foi ilibado no processo Casa Pia e que, antes como hoje, até prova em contrário, deve ser julgado inocente. Como tal, Paulo Pedroso tem direito a fazer a sua vida sem ser banido da sociedade como, pelos vistos, advoga Frazão. São as regras de um Estado de Direito porque o tempo da justiça popular e das fogueiras da Inquisição já lá vai há muito.

Vinda de Paulo Pedroso Santarém gerou polémica na reunião de câmara

O eleito do Chega na Câmara de Santarém não gostou de ver o ex-ministro socialista Paulo Pedroso, que foi suspeito no caso Casa Pia, como orador convidado na sessão de abertura do ano lectivo do Politécnico de Santarém e manifestou o seu repúdio na reunião do executivo, apesar do município nada ter a ver com o evento.

A presença do ex-ministro socialista Paulo Pedroso como orador convidado para a sessão solene de abertura do ano lectivo do Instituto Politécnico de Santarém (IPS) não passou despercebida ao vereador do Chega na Câmara de Santarém, Pedro Frazão. Na reunião de câmara de segunda-feira, 31 de Outubro, o autarca afirmou-se “perplexo” e “bastante chocado” por Santarém “também ter servido para branquear” o ex-ministro, que chegou a estar em prisão preventiva na primeira década deste século acusado de abuso sexual de menores, no âmbito do processo Casa Pia, acabando por não ir a julgamento.

Ressalvando que o município é completamente alheio à presença de Paulo Pedroso num acto solene do IPS, Pedro Frazão justificou que não poderia deixar de expressar o seu “repúdio” pela participação do ex-governante, como “figura de alto destaque”, numa sessão solene em Santarém, município pelo qual, referiu, tem um mandato como vereador. “Andam a branquear uma personagem que devia estar sossegada e ter vergonha na cara até toda a gente se esquecer do seu passado recente e de triste memória”, atirou.

Os esclarecimentos do presidente do IPS

O MIRANTE contactou o presidente do Politécnico de Santarém, João Moutão, para pedir uma reacção a essa intervenção. A resposta chegou já após o fecho da edição em papel. “Sobre a intervenção do vereador do Chega, Pedro Frazão, o único comentário que posso fazer é que a mesma reflete a sua opinião, não me cumprindo a mim, enquanto presidente do Politécnico de Santarém, fazer qualquer tipo de juízo de valor sobre as opiniões dos diferentes atores da política local”, diz o responsável.

João Moutão esclarece ainda que “O Dr. Paulo Pedroso tem intervenção cívica semanal no canal de televisão pública RTP3 e na rádio TSF, sendo nessa qualidade, de analista, que foi convidado a intervir na sessão de abertura do ano académico”. Acrescenta que “a intervenção versou sobre os desafios que a sociedade portuguesa enfrenta no período pós- pandemia e foi muito apreciada e elogiada por todos os presentes”. O presidente do IPS conclui dizendo que “do ponto de vista da honorabilidade, o Dr. Paulo Pedroso nunca foi condenado por nenhum ilícito, pelo que tem direito a uma participação cívica como a de qualquer outro cidadão”.

Socialistas criticam Chega

A intervenção do vereador do Chega na reunião de câmara causou visível desconforto na bancada do PS, com o vereador Manuel Afonso a tentar interromper a intervenção alegando que o assunto não dizia respeito à gestão do município. “Isto é difícil de ouvir, mas tem de ser. Fico pasmado quando toda a gente aceita que esta figura venha a Santarém fazer uma oração de sapiência na abertura do ano curricular e ninguém reclama”, continuou Pedro Frazão.

O vereador socialista Manuel Afonso voltaria ao assunto pouco depois para dizer que não iria entrar em discussões sobre assuntos em que compete à justiça pronunciar-se, “condenando quem deve condenar e absolvendo quem deve absolver”. E discordou que o Chega tenha utilizado a reunião pública de câmara para abordar um assunto que não está relacionado com os destinos do concelho.

Também o presidente da câmara, Ricardo Gonçalves (PSD), defendeu que as intervenções que nada têm a ver directamente com o concelho devem ser feitas noutros locais, sugerindo a Pedro Frazão que peça uma reunião ao presidente do IPS para manifestar o seu desagrado ou que, como deputado, faça essa intervenção no Parlamento, questionando a ministra da Ciência e Ensino Superior sobre o assunto.

O vereador socialista Nuno Russo também interveio, aludindo à sua qualidade de membro do Conselho geral do Politécnico de Santarém, para dizer que todos têm a liberdade de criticar “mas no sítio certo”, considerando que a reunião de câmara não era o local adequado para se expor aquele assunto.

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