Opinião | 23-11-2022 10:07

Esperança

Não vivemos os piores tempos da Humanidade. Simplesmente, muitas vezes deixamo-nos confundir com a realidade do nosso quintal. Não obstante vivermos num país adiado, pedinte, atrasado e que foi ultrapassado por quase toda a Europa.

Somos 8 mil milhões de Seres Humanos. Porém, muitos não vivem com o mínimo de dignidade que mereciam. Já quanto a nós, os mais pobres dos ricos, vamos carpindo diariamente as nossas mágoas, dado que a insatisfação faz parte do mais íntimo da natureza humana. Donde, muitas vezes não percebemos que o tempo que estamos a viver, o momento presente onde a vida acontece, o agora, está pejado de felicidade. Ou pelo menos, que já se viveram tempos bem piores.

Os números não mentem: não obstante a horrível situação de milhões de pessoas em todo o mundo - pobreza, fome, doenças, guerras, etc -, nunca a humanidade, globalmente falando, viveu tão bem como hoje em dia. Como é evidente, esta observação não pode fazer esquecer cada um dos Seres Humanos vítimas da fome ou da guerra. Não, de todo. Apenas pretende sublinhar que, não obstante as nossas agruras diárias, existe um horizonte de esperança para a espécie humana.

Vive-se hoje muitíssimo melhor do que, por exemplo, há apenas 100 anos atrás. Se recuarmos ainda mais no tempo, a diferença será ainda mais abissal. Recordo-me perfeitamente, há bem pouco tempo, num debate televisivo, de alguém mencionar que tínhamos de regressar aos tempos pré-revolução industrial, onde “a comida era natural e não existiam químicos”. Bom, apetecia-me recordar a essa personagem o quão bom era o séc. XVIII: 30 a 40 crianças em 100 não chegavam a fazer 1 ano de idade, os que sobreviviam morriam por volta dos trinta anos e a fome no mundo era astronómica.

Observem-se os números - https://ourworldindata.org/poverty : em 1820, existindo 1,08 mil milhões de habitantes, 1,02 mil milhões viviam na pobreza extrema - 94% da população; em 2015 com 7,35 mil milhões de habitantes, 705,6 milhões viviam na pobreza extrema - 10,2% da população. Em suma, a pobreza extrema caiu, abruptamente, de 94% do total da população em 1820, para 10% em 2015. Desde 2015 essa pobreza estabilizou à volta de 8% da população global. Com a epidemia de Covid 19, o número de Humanos que vivem nesse estádio de pobreza aumentou 46 milhões atingindo o valor de 828 milhões em 2021, representando 9,8% das pessoas no mundo.

Claro que os números actuais têm de nos envergonhar profundamente, quando se sabe que existem meios e tecnologia mais do que suficientes para debelar a tragédia da fome. Todavia, não podemos dizer que vivemos tempos horríveis. Existem guerras como sempre existiram e, infelizmente, sempre irão existir. Pense-se em Portugal: os meus avós nasceram no início do séc. XX, passaram por um assassinato de um rei em 1908, por uma revolução em 1910, marcharam para a grande guerra em 1916 - Bélgica e África -, viram o homicídio de um presidente da república em 1918, a gripe pneumónica em 1918 e 1919 - onde morreram 100 mil Portugueses -, a noite sangrenta de Lisboa em 1922, uma revolução em 1926, uma guerra civil aqui ao lado em Espanha em 1936, a segunda guerra de 1939 a 1945 – com as bombas atómicas -, a guerra da Coreia, as guerras no Ultramar Português de 1961 a 1974, a guerra do Vietnam, a revolução do 25 de Abril, entre muitos outros acontecimentos.

Sim, claro, muitos dos melhoramentos da sociedade moderna foram feitos à custa do meio ambiente, chaga medonha que temos de curar rapidamente.

Mas não vivemos os piores tempos da Humanidade. Simplesmente, muitas vezes deixamo-nos confundir com a realidade do nosso quintal. Não obstante vivermos num país adiado, pedinte, atrasado e que foi ultrapassado por quase toda a Europa, se levantarmos a cabeça e observarmos toda a Humanidade, percebemos que a espécie humana está, no meio das adversidades – que vão continuar - a progredir e que existe um horizonte de esperança que importa enfatizar.

P.N.Pimenta Braz

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias

    Edição Semanal

    Edição nº 1587
    01-09-2021
    Capa Médio Tejo
    Edição nº 1587
    01-09-2021
    Capa Vale Tejo