Opinião | 22-12-2022 07:00

Desfalque na Agromais vai ficar na história do associativismo em Portugal

Quando se soube que a Agromais tinha sido lesada num desfalque milionário falou-se em 10 milhões de euros. Os responsáveis vieram dizer que eram só dois milhões mas, entretanto, já se sabe que podem ser 4,5 milhões; e a procissão ainda vai no adro. Como é que uma cooperativa fica nas mãos de um impostor durante 12 anos, sem ser descoberto, é o que falta contar deste desfalque que vai ficar na história do associativismo em Portugal.

A ser verdade que a Agromais sofreu um desfalque de 4,5 milhões de euros nos últimos 12 anos, e que os números agora anunciados foram apurados antes de uma auditoria externa, a direcção da cooperativa só pode ter andado nas nuvens ou a ver navios. Há qualquer coisa que tem que mudar na gestão das cooperativas destes tempos. E não falo só da Agromais; falo de outras cooperativas que, como a Agromais, têm direcções que se eternizam porque depois de ganharem o poder criam uma teia de interesses que é difícil combater, e fazer frente, quando a gestão começa a ser desajustada da realidade. A blindagem que existe em várias cooperativas e associações do país faz desistir e desmotivar qualquer cidadão que queira exercer o seu direito de cidadania, nomeadamente quando é preciso mobilizar os associados na hora das eleições; a máquina eleitoral nas cooperativas e associações que defendem grandes interesses sabe como se proteger e derrubar o "inimigo".
Desde que foi conhecido o desfalque na Agromais que O MIRANTE ouviu de responsáveis associativos ligados ao sector agrícola conversas que demonstram o incómodo de uma liderança que se estendeu no tempo e que, aparentemente, era contestada mas, como quase sempre, só no silêncio dos gabinetes. É difícil entender como é que um empresário e dirigente associativo como Luís Vasconcellos e Souza se deixa enganar por um funcionário durante uma dúzia de anos. Quem conhece o presidente da Agromais sabe que é uma pessoa séria, com fortuna pessoal, uma pessoa de temperamento difícil mas incapaz de se deixar embrulhar por um espertalhão, quanto mais por um ladrão. Aparentemente parece que no melhor pano cai a nódoa. Não há outra conclusão a tirar depois do que se vem sabendo desta novela negra, que já vai em 4,5 milhões, e que bem pode chegar aos 10 milhões quando começar o trabalho dos auditores externos. Eram estes os números que circulavam quando rebentou o escândalo, mas o que foi anunciado foram dois milhões; já vai em quase cinco. Veremos o que nos reserva o futuro.
É difícil, não encontro outro termo, aceitar que Luís Vasconcellos e Souza, assim como Jorge Neves, o seu braço-direito, tenham sido ludibriados durante uma dúzia de anos quando são pessoas formadas e experimentadas na vida, habituadas a acharem a agulha no palheiro, a nunca facilitarem em investimentos, a nunca estragarem dinheiro em obras de Santa Engrácia, a gozarem da fama e do proveito de serem forretas, não só no apoio aos parceiros locais como na hora de estabelecerem os preços dos cereais e os custos dos secadores.
Embora o orçamento da Agromais não seja uma ridicularia, uma organização que não descobre um desfalque desta envergadura, que dura uma dúzia de anos, liderado por ladrão a solo, no meio de tanto funcionário, tantas prestações de contas anuais, só pode ser fruto de uma má organização. Não estou a pôr em dúvida a seriedade dos principais responsáveis da Agromais; só estou a perguntar como é que é possível não haver já uma revolução na cooperativa, que foi roubada por alguém que só agora é que começa a ser conhecido, cujo estilo de vida todos ignoravam, assim como a sua vida familiar; e até o local onde morava, embora todos julgassem saber que era em Abrantes.
Que a Agromais foi vítima de um verdadeiro artista parece que não restam dúvidas. 4,5 milhões de euros desviados em 12 anos não são cêntimos mesmo para uma organização como a Agromais. E se os números subirem para o dobro também não é por isso que a Agromais vai à falência. O mal está feito. Agora é só esperar que cada um assuma as suas responsabilidade e que a culpa não morra solteira. É mais que certo que este desfalque na Agromais vai ficar na história do associativismo em Portugal. JAE.

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