Opinião | 05-01-2023 07:00

Toda a vida e mais seis meses

O título da crónica não tem a ver com o conteúdo. Mas devia; falta de jeito do cronista que trocou as voltas ao texto e não conseguiu dar a volta ao título.

Quem me conhece sabe que não sou de festas nem de festinhas. Gosto de festejar os meus anos quando me apetece, e o mesmo com o Natal, o Carnaval e todos os grandes festejos que reúnem multidões. Regra geral quando a maioria festeja eu estou a trabalhar ou recolhido no meu cantinho. Quando tudo volta ao normal marco viagens e vou viajar, aproveito os spas dos hotéis, vou às lojas comprar o essencial, enfim, não sou de luxos nem nunca fui e contento-me cada vez mais com o pouco que preciso para não ganhar barriga nem me tornar num velho jarreta como já vejo por aí muitos que ainda nem chegaram à minha idade.
No início da noite da passagem de ano saí à rua de mota, sem a chave de casa, e tive que me abrigar durante quase uma hora nas arcadas de um centro comercial, junto do pessoal que esperava as encomendas para entregar porta-a-porta. Entrei num multibanco de uma conhecida agência bancária, do tamanho de uma sala de festas, e fui dar com uma jovem a dormir no quentinho do espaço, a um canto, com a mala de mão em cima do colo. Estava a dormitar e deixou-se observar como se fosse um animal raro. Estava bem vestida mas percebia-se que não era fato para uma festa de passagem de ano. Não tive coragem para lhe perguntar se precisava de ajuda.
Quando a chuva abrandou meti-me ao caminho de capacete enfiado no braço e tentei adivinhar o drama humano dentro de três ambulâncias que passaram por perto, num espaço de meia hora, a caminho do Hospital de São José.
Perto da hora em que acabava a missa, numa igreja perto de casa, fui tocar a campainha do meu prédio e encontrei finalmente abrigo, conforto e companhia para passar mais uma noite, igual a tantas outras, com a diferença desta ser mais marcante no calendário das nossas alegrias e desilusões.
Para não variar aproveitei a folga no trabalho, embora de computador ligado, para durante uma parte da noite, e no dia de Ano Novo, ler pela terceira vez o mesmo livro de Rosa Montero com o título de A Louca da Casa. Ainda não sei explicar porque escolho alguns livros para reler, embora tenha tantos na estante que nunca li, e gostava tanto de ter tempo para ler. Agora que escrevo sobre o assunto tenho a sensação que para o ano vou voltar ao mesmo livro, provavelmente noutra edição, já que a deste ano está toda assinalada e certamente que a vou oferecer a um dos meus filhos para quando morrer ficar a prova de que existi e deixei rasto. É pouca coisa mas cada um deixa aquilo que tem de melhor.
Uma última nota, que me escapava deste final e início de ano, que foi bem mais tranquilo do que muitos outros. Realizei e trabalhei uma entrevista que um dia destes há-de ser paginada que me consumiu e fez perder a paciência. O trabalho de jornalista não é para fracos, nem para preguiçosos, e muito menos para quem julga que a profissão também é para velhos. Não é. Definitivamente. Daí esta vontade de mostrar serviço que de vez em quando me rouba o sono mas não me faz desistir. JAE.

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