Opinião | 29-03-2023 07:00

Uma poesia que não morre com o passar do tempo

Uma poesia que não morre com o passar do tempo
Maria do Rosário Pedreira foi à Casa-Memória de Camões, em Constância, apresentar o seu último livro de poesia “O meu corpo humano”

À Margem/Opinião

“O meu corpo humano”, de Maria do Rosário Pedreira, é sem dúvida o livro de poesia que mais surpreendeu o mercado nestes últimos tempos. O prémio que lhe foi atribuído recentemente não aquece nem arrefece para o prestígio que a poeta já tem entre os seus pares, e na qualidade da sua obra poética. Apesar de não ser uma poetisa de muitos livros, Maria do Rosário Pedreira mantém uma presença nas estantes das livrarias que também se deve à sua influência como editora, embora neste caso bem merecida e sem favor.
“O meu corpo humano” é assumidamente um livro de poesia erótica, que marca uma nova etapa na vida da escritora, que sempre foi autora de uma escrita forte, “com as suas variações obsessivas sobre o amor e a perda, a entrega total e o esgotamento da paixão, as ausências e os recomeços”. Quem quiser arriscar voltar a ler poesia pode partir à descoberta deste “O meu corpo humano” e depois procurar da mesma autora livros como “A Casa e o Cheiro dos Livros”, 1996 - Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho (1996), “O Canto do Vento nos Ciprestes”, 2000 e “Nenhum Nome Depois”, 2004, que não se vai arrepender e saberá o que é o privilégio de conhecer uma poesia que não morre com o passar do tempo.

Maria do Rosário Pedreira: “a minha escrita serve para lamber feridas”

Maria do Rosário Pedreira é uma das editoras mais influentes do mercado e uma poeta que acaba de publicar um livro que esgotou nas livrarias e que logo a seguir teve um dos prémios mais cobiçados, o Prémio Casino da Póvoa. Esteve na Casa-Memória de Camões, em Constância, numa conversa intimista sobre escrita, literatura e a vida.

Maria do Rosário Pedreira foi a autora convidada para a última edição da “Tertúlia de Poesia” da Casa-Memória de Camões, em Constância. A editora da Quetzal levou cerca de duas dezenas pessoas ao auditório da sede da associação para uma conversa intimista sobre como a escrita e a leitura podem ajudar a ultrapassar alguns problemas existenciais e funcionar como terapia. Maria do Rosário Pedreira começou por contar as razões que a levaram a escrever os primeiros textos quando ainda era criança. “Precisava de tempo de antena. Sou a mais nova dos irmãos e comecei a escrever para os meus avós e pais. Era a única forma que tinha de chegar ao outro”, partilha.
A escritora, que aproveitou a sessão para apresentar o seu último livro de poesia, “O meu corpo humano”, vai mais longe e afirma que a leitura e a escrita foram os únicos entusiasmos que colocou ao longo do seu crescimento enquanto mulher. “Não coloquei fascínio em mais nada da vida. Só consegui que alguém casasse comigo aos 40 e tal anos”, revela, em jeito de brincadeira. Maria do Rosário Pedreira confessa a felicidade por “viver da literatura” e de “editar os livros dos outros”. No entanto, enquanto escritora com voz própria, afirma que o seu processo de escrita é terapêutico e serve para lamber feridas. “Tenho poucos livros publicados porque só escrevo em momentos em que há coisas que me estão a fazer mal. Por outro lado, como edito livros de ficção, sinto necessidade de publicar um livro que seja um todo e não apenas porque tenho 40 poemas reunidos”, vinca.
Sobre a sua última Obra, Maria do Rosário Pedreira revela que foi impulsionada pelos tempos difíceis vividos durante a pandemia. Os poemas presentes no livro têm o título de partes do corpo porque, na sua opinião, “o tempo é inimigo do corpo”. “A vulnerabilidade do nosso corpo faz-me preguntar: o que ganham as pessoas que são corruptas para quererem enriquecer tanto quando o tempo voa? A minha dor de ver horrores nos jornais fez-me escrever estes textos”, sublinhou.
“Não comecei a ter voz própria depois de ser editora. Já tinha a voz lá atrás; o meu pai também escrevia, sobretudo letras de fado, que é uma coisa que hoje faço com muito prazer”, explica. Na sua opinião nem toda a gente com jeitinho para a escrita pode ser escritor e, em Portugal, a qualidade dos poetas é consideravelmente melhor em relação a outros países com mais tradição. “Há uma dominância da poesia em Portugal. A prosa está toda inquinada, há obras horríveis que estão nos top’s de vendas e, apesar de tudo, os maus poetas não são publicados porque a boa poesia é muito difícil de imitar. É preciso ter o tal talento”, concluiu.

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