Opinião | 13-04-2023 07:00

Relatos sobre a vida incerta dos empresários portugueses

Camões foi soldado raso, calejou os dedos a puxar adriças, tressuou a dar à bomba ouvindo descomposturas e impropérios dos mestres das naus em que viajou. O discurso do presidente da AIP no aniversário da associação não falou de Camões, mas lembrou que quem governa nos dias de hoje nunca teve vida incerta nem cheia de baldões e rica de polpa como o poeta autor de “Os Lusíadas”.

António Valdemar, um dos nossos melhores jornalistas culturais, certamente o mais sábio da actualidade, publicou recentemente um trabalho sobre Camões que tem um parágrafo que não esqueci apesar do artigo já ter uns meses. Aquilino Ribeiro, um dos seus biógrafos, evidencia a agudeza de retina insuperável de Camões quando faz a “anotação do real”. Isto só foi possível — observou — por ter sido “soldado raso, sujeito a todos os trabalhos da mareação, calejando os dedos a puxar as adriças, tressuando a dar à bomba e ouvindo, com torva, mas obediente cara, as ordens, descomposturas e impropérios” dos mestres das naus em que viajou. Daí a obra de Camões ser um relato “da sua vida incerta, precária, cheia de baldões e rica de polpa, tanto para o bem como para o mal”.
Não encontrei melhor citação para trazer aqui o texto do presidente da AIP, José Eduardo Carvalho, que na passada semana, no aniversário da associação empresarial, partiu a loiça e falou daquilo que todos se queixam, mas em surdina, num país que, apesar de alguma evolução, continua a ser de gente bem mandada. “É muito difícil contrariar na concertação social algumas propostas e posições governamentais. É um espaço desequilibrado. Também comungo a ideia que nas matérias fiscais e laborais mais sensíveis os governos tomam sempre as dores dos sindicatos”. Já quanto à questão fiscal criticou a política do Governo que “penaliza lucro, poupança e trabalho e em que a excessiva carga fiscal é suportada por mais de quatro mil impostos e taxas, muitas delas com suporte legal discutível”. Por último, recordou que “todas as recomendações e sugestões para ultrapassar os problemas da litigância fiscal e a morosidade do contencioso tributário são ignoradas: transição voluntária para os tribunais arbitrais, limitação temporal dos juros compensatórios, aceitação voluntária por parte da AT da jurisprudência evitando o contencioso e reintrodução do regime de caducidade das garantias”.
Quem fala assim não é gago. Só não se percebe como a classe empresarial continua tão dócil e ajoujada aos interesses dos políticos do momento; à maioria daqueles que, como Pedro Nuno Santos, João Galamba, Hugo Mendes, Mariana Vieira da Silva, entre muitos outros, que nunca tressuaram ou calejaram os dedos, para voltar a citar António Valdemar sobre Camões. JAE.

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