Opinião | 15-06-2023 07:00

Um cristão no meio dos gatos e da cidade medieval de Santarém

Sou um cidadão do mundo, e um escalabitano adoptado, que acha a sua cidade de eleição um burgo habitado por pessoas que parecem viver ainda num tempo medieval. Basta ver como se deixam colonizar pelos dirigentes de uma associação de grandes interesses ou como lidam com um cidadão que tem o azar de estacionar o carro onde os gatos adoram viver como se não houvesse amanhã.

Se não tivesse que trabalhar dedicava o resto da minha vida a viajar; cá dentro e lá por fora; uma das cidades que eu privilegiaria era Santarém. Considero Santarém uma cidade de antanho; não há na cidade, salvo as excepções que confirmam a regra, gente destemida, avangard, sintonizada com as sociedades modernas e as cidades que se querem para o presente, mas também para o futuro. Santarém parece uma cidade de pessoas do tempo medieval ou, para ser menos sarcástico, do tempo de D. Carlos I. Na terça-feira, 6 de Junho, fui almoçar a um restaurante no centro da cidade, para logo de seguida viajar para o Porto, onde tinha hora marcada para chegar. Ao sair do restaurante fui abordado por uma senhora que espreitava para debaixo do meu carro com uma lata de conserva na mão; tinha descoberto que eu tinha um gato no motor do carro. Agradeci o aviso e disse-lhe que já não era a primeira vez que acontecia e expliquei-lhe com todas as palavras como é que tinha resolvido o problema das outras vezes. Meti-me no carro, sem mais cerimónias, e fui à minha vida. O caminho entre o restaurante e a sede do jornal demora dez minutos, mesmo com muito trânsito. Pelo caminho recebi um telefonema reencaminhado do jornal a avisar que a Polícia tinha ligado para dizer aquilo que eu sabia.
Antes de me fazer à estrada fui a uma oficina e mandei subir o carro no elevador, mas o gato por onde entrou saiu no meio tempo em que entrei no meu gabinete, fui à casa-de-banho, lavei os dentes e aproveitei para tirar o escalpe, limpar as teias de aranha que tinha no cérebro para me recompor e ficar pronto para chegar ao Porto no meu carro e não numa ambulância ou num carro da Brisa.
Já esqueci o gato, mas não me esqueço do monte de gente que, ao longe, enquanto me afastava para ir à minha vida ficou a rogar-me pragas porque ou esperavam que eu ficasse ali no meio da estrada à espera que o gato saísse de dentro do motor do carro ou fosse consolar algumas delas com cantigas medievais para não fugir à mentalidade reinante.

Não fui, mais uma vez, à Feira da Agricultura por isso não posso dizer bem nem mal do certame que não seja por interpostas pessoas. Acho que este ano os oito euros da entrada não devem ter sidos suficientes para os donos do CNEMA ficarem muito mais ricos. O facto de não terem membros do Governo na Feira só lhe dá estatuto porque o actual Governo está com tantos problemas que não me admira que tenha sido António Costa a pedir a Luís Mira, o verdadeiro dono do CNEMA, a fazer uma cena marada com a ministra da Agricultura para desviar as atenções dos grandes problemas com o SIS, o ministro Galamba e o escândalo da TAP, que nos remetem também para um tempo medieval em que tudo era permitido aos senhores do Reino.

O meu caso da semana foi com um jornalista que trabalha há 20 anos em Lisboa a recibo verde. Ofereci-lhe um contrato de trabalho e só faltou que me agradecesse com um beijo na boca. Na hora e no dia combinados não apareceu. No dia seguinte liguei e passado uma hora recebi uma mensagem escrita com uma desculpa esfarrapada que me deixou envergonhado. Estou a escrever sobre uma pessoa com 40 anos, 20 anos de trabalho, que partilhou comigo vivências que ligam as nossas vidas pelo mesmo fio do jornalismo e da cultura em geral. Perguntei-lhe se só comunicava por mensagem escrita ou se podíamos falar ao telefone para esclarecer o que é que se tinha passado. A resposta não chegou até hoje e, como é evidente, nunca mais chegará. Certamente está à espera de ir trabalhar para assessorar um membro do Governo, para o gabinete de comunicação de algum organismo do Estado, da CAP ou, quem sabe, algum organismo do tempo da Idade das Trevas, com gabinete de trabalho nas ruínas da cidade de Lisboa, provavelmente geridas pelos homens fortes da CAP, onde ainda se conspira como no tempo das Cruzadas. JAE.

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