Opinião | 24-08-2023 16:47

Novo Aeroporto: o altíssimo custo CT Alcochete é apenas a ponta do icerberg

A solução Campo de Tiro de Alcochete para o novo aeroporto de Lisboa condiciona o futuro de Portugal. A solução “mata” a interface HUB aéreo-HUB ferroviário; “mata” o porto de Lisboa: “mata” o desenvolvimento do cluster aeronáutico: “mata” o desenvolvimento logístico: “mata” a atual atratividade turística de Lisboa e “mata” a sustentabilidade ambiental.

A Comissão Técnica Independente (CTI) recebeu a documentação comprovativa do que o custo da localização CT Alcochete (direto e conexo) é cem vezes superior ao da localização Alverca.

As comissões “independentes” desprezam o custo em 2023 como antes o desprezaram em 2007. Desprezam-no porque não são elas que financiam o aeroporto, é a dívida dos portugueses.

Nos artigos anteriores, procurámos aclarar os contornos técnicos da solução HUB Alverca-Portela. Sem prejuízo de a eles voltarmos, entendemos ter chegado a altura de começar a explicar, com números, a razão do vigor das nossas afirmações na entrevista introdutória.

A transparência é a diretriz na análise do custo. Para isso, é preciso que o comparativo de localizações inclua tudo, mesmo tudo, que esteja relacionado:

a) o que é intrínseco do local (mudança militar, terraplenagem/drenagem geral e ruído);

b) as infraestruturas relacionadas (aeroportos e facilidades existentes):

c) as consequências indiretas (pistas CT Alcochete obrigam a nova pista na BA Montijo);

d) as colaterais implicações na harmonização com os traçados da Alta Velocidade ferroviária;

e) as acessibilidades ao aeroporto.

A AVALIAÇÃO É FEITA AO NÍVEL DA PLATAFORMA (exclui Plano Diretor sobre ela colocado)

Contexto: a CTI sabe que o primeiro aeroporto europeu numa ilha artificial (Ordu na Turquia) abriu no ano de 2015. E sabe que a sua plataforma de 180ha em mar aberto precisou de um quebra-mar com 4,5km e, também, de aterro de 20 milhões de m3 feito com recurso a exploração de pedra? E, principalmente, sabe que mesmo com estas condições mais gravosas que em Alverca, a plataforma do aeroporto Ordu custou apenas 100 milhões de euros.

O que temos a certeza que a CTI conhece do HUB Alverca-Portela: a enorme redução de trabalhos na protegida plataforma em Alverca versus a de Ordu: por ser menor (160ha), por não ter quebra-mar e, também, por o volume do aterro ser 1/3 do aeroporto turco.

É inquestionável que a CTI sabe que a reparação do dique da ilhota é competência pública (APA/ICNF) e que o aterro com areia de dragagem é encargo do Porto de Lisboa. O que significa que sobra para encargo do aeroporto apenas a consolidação da areia (drenos), dois curtos viadutos-taxiway e minudências, trabalhos com um custo até 100 milhões de euros.

O que temos a certeza que a CTI conhece do HUB CT Alcochete: foi entregue exaustiva documentação comprovando que o custo da plataforma CT Alcochete e conexos (ponte Chelas-Barreiro e bastantes mais) ia a 10.000M€. O que significa que a CTI sabe, sem sombra para dúvidas, que o custo global da sua solução preferida (é público) é cem vezes superior ao de Alverca.

A mais dispendiosa pista europeia (aeroporto de Frankfurt) comprova, simultaneamente, o desmesurado excesso do custo da localização CT Alcochete e a eficiência da localização Alverca: até agora, a ampliação da capacidade aérea com a pista-remota alemã foi a mais cara, atingindo 1.400M€ devido à sua complexidade/envolvente.

A pista tinha de ter operação “independente”, o que só se conseguia do outro lado da autoestrada/ferrovia (complicado sobrevoo por viadutos-taxiways) e à custa de derrubar uma apreciável área florestal (mais de 100ha) e aumentar as pessoas afetadas pelo ruído. E, principalmente, foi preciso mudar (foi a tribunal) uma fábrica química (650M€).

A ampliação de capacidade (mais 30 milhões) custou sete vezes menos que a de CT Alcochete.

O ALTÍSSIMO CUSTO CT ALCOCHETE É APENAS A PONTA DO ICEBERG.

A solução CT Alcochete condiciona o futuro de Portugal devido à rigidez das suas negativas consequências:

A solução “mata” a interface HUB aéreo-HUB ferroviário: na estação-aeroporto devem passar diretamente todas as ligações AV (Lisboa-Porto/Lisboa-Madrid /Lisboa-Faro), medida imediata do acordo para redução CO2. O hub ficaria no lado do Tejo oposto à procura e num ramal.

A solução “mata” o porto de Lisboa: a ponte Chelas-Barreiro, na bacia de manobra do porto de Lisboa, só pode ter 42m de altura livre, quando o porto precisa de 70m (a altura livre na ponte 25 de Abril) para os mais recentes paquetes. Não se conhece um único grande porto nos tempos modernos que tenha condicionado o seu futuro com uma ponte.

A solução “mata” o desenvolvimento do cluster aeronáutico: o atual cluster fica dividido pelo largo estuário do Tejo, além da parte TAP-manutenção ficar num local ermo e desenquadrado dos centros de saber/tecnologia.

A solução “mata” o desenvolvimento logístico: o posicionamento estratégico e a massa crítica são a mola do progresso. A localização CT Alcochete é a antítese.

A solução “mata” a atual atratividade turística de Lisboa: o hub aéreo ficaria por ferrovia a 60km (55+5) do centro. Os concorrentes mais diretos de Lisboa (Madrid e Barcelona) já têm Metro no aeroporto e Paris vai em breve também ter nos seus dois aeroportos, no próximo ano no HUB CDG e até três anos depois em Orly. O desvio de turista seria significativo.

A solução “mata” a sustentabilidade ambiental: prejudica o maior aquífero nacional, derruba milhares de árvores de uma floresta certificada, tem o impacte (desconhecido) de um novo campo de tiro, elimina uma barragem, fica no meio do fluxo de aves entre as duas maiores reservas nacionais (Tejo e Sado), as trajetórias da nova pista militar na BA Montijo conflituam com as zonas de maior densidade de aves, o canal de navegação do Montijo tem de ser desviado e, ainda, o polo químico do Lavradio tem de ser deslocalizado. A percentagem de acesso por transporte público será baixa, com o transporte por rodovia dominante e a ponte Chelas-Barreiro a despejar milhares de carros de desnecessárias viagens entre as margens do Tejo.

Para o “sistema” que levou à escolha de CT Alcochete em 2007, praticamente nada disto é novo. No passado foi apagado ou menorizado. No presente, com o dobro da dívida pública de então, o mesmo “sistema”, agora pelo braço da CTI, procura repetir o método. Porém, agora existe a solução HUB Alverca-Portela que, em defesa do superior interesse publico, trará a verdade à tona. Como o azeite em água (turva).

*José Furtado é Engenheiro, faz parte da equipa que propõe como solução para o futuro Aeroporto Internacional de Lisboa a solução Alverca.

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