Opinião | 25-10-2023 11:44

Mouchão da Póvoa: “tesouro” ou “mãos vazias”

Até o próprio representante do município de Vila Franca de Xira, que já perdeu a ilusão da aviação executiva (está confirmado o desvio da Portela para o aeródromo de Tires) e conhece o risco de Alverca ver a OGMA abalar para um novo aeroporto, prefere ficar de mãos vazias e ir apanhar o avião a qualquer outro lado. É muito estranho. Será que a inovadora solução HUB Alverca-Portela é assim tão má? Ou será porque é muito boa?

O que é sobejamente conhecido sobre a base aérea de Alverca

Sabe-se que das três possíveis bases aéreas (Montijo, Sintra e Alverca) para compor uma solução dual com Portela, a única sem operação militar é Alverca. Sabe-se, também, que é a única que tem instalada uma grande empresa de MRO (Maintenance, Repair & Overhaul). E, também, que é a única que tem estação na Linha do Norte (a espinha dorsal da rede) com quatro linhas férreas até Lisboa e igualmente a única que tem uma circular rodoviária (CREL). E, ainda, que é a única que está “integrada” no maior polo logístico nacional (Alverca-Carregado-Azambuja-Alenquer) e no porto de Lisboa (terminais portuários entre Alcântara e Castanheira).

Alverca tem um “tesouro” escondido

Encostado à base aérea, está um grande mouchão com parte dentro de um dique (52%), cuja derrocada não reparada (já vai fazer oito anos) provocou a sua total devastação, com o vaivém das marés, levando a camada superficial de terra agrícola. Foi, contudo, uma desgraça que expôs o “mapa” para achar um “tesouro” escondido, o qual vale mais de 10 mil milhões de euros.

O “mapa” tem uma representação da alongada ilhota fluvial, com apenas umas pequenas ruínas num canto, e não indica qualquer árvore nem a presença de animais terrestres. No rodapé, tem uma curta nota que diz as aves que por lá passam: são menos de 1% do total no estuário do Tejo.

O ICNF não encontrou o “tesouro”. Preferiu atrair aves como contrapartida ao uso civil da BA Montijo, mas veio a descobrir que isso não era permitido pela proximidade à pista OGMA.

Nós descobrimos o “tesouro”, o formato alongado da ilhota fluvial possibilita nela colocar uma pista de 4.000m com orientação paralela à pista da Portela e, ainda, um canal de mobilidade paralelo ao existente canal Lisboa-VFX, (estreito e esgotado) para enformar um só aeroporto de 1.650ha.

Como decifrámos o “mapa” para descobrir o “tesouro”:

Observámos o mundo. Olhámos para Xangai e para o seu aeroporto Pudong, em grande parte sobre água. Vimos o percurso de 29km entre o aeroporto e a estação de metro de Longyang (a 6km do centro) com o mais sofisticado transporte, o comboio Maglev (levitação magnética), que atinge 431km/h, o qual faz o percurso em 7,5 min com intervalo de 15min. O que significa, com espera média de 7,5min, que o mais rápido e caro meio de transporte de um aeroporto demora um tempo total de 15min.

Olhamos a seguir para Nova Iorque. Vimos o seu aeroporto Newark. Reparámos que o percurso ferroviário entre ele e Manhattan tem uma extensão de 7km sobre um mouchão, com uma ponte de 450m de um lado e uma de 280m do outro.

Percebemos que era a perspetiva de quem olha que permitia descobrir o tesouro.

A fusão dos aeroportos Portela e Alverca requer um comboio dedicado a passageiros com intervalo até 4min (por causa da transferência). Ora, o percurso entre o aeroporto-Alverca e a estação de metro na Portela (a 5 km do centro com Xangai) feito por um comboio-automático convencional (como o de Copenhaga) demora 12min, o que, com espera média de 2min, significa um tempo total de 14min. E, melhor ainda, na nossa visão, o comboio (interno) acumula dois serviços: transferência entre terminais Alverca e Portela e o transporte do terminal Alverca (75% tráfego) para o centro.

Colocámos a nossa ideia sobre o mapa e descobrimos o “tesouro”: o percurso do comboio-automático dedicado aproveita o mouchão numa extensão de 6km (como Newark), com uma ponte de 450m de um lado e uma de 250m do outro.

E fomos claros e transparentes na proposta que colocámos à consideração da concessionária aeroportuária e do governo. O par de pistas paralelas Portela 03-21/nova Alverca 03-21 com afastamento transversal de 4,5km, foi apresentado à VINCI em agosto de 2017 e ao Governo em dezembro desse ano. A Avaliação Ambiental Estratégica da solução global HUB Alverca-Portela foi enviada ao Governo e à VINCI em dezembro de 2018, ou, seja, inclusive meses antes da própria entrega do EIA Montijo pela VINCI (a menor parte da sua solução global HUB Portela + Montijo).

“O pior cego é o que não quer ver”

Utilizámos a historieta do “mapa do tesouro” para realçar o que julgávamos inconcebível num país que vive de mão estendida para a UE: mesmo que provemos que a conceção do HUB Alverca-Portela permite ter um transporte ferroviário com melhor desempenho (tempo) que o sofisticado Maglev de Xangai por cerca de 5% do seu custo, não interessa. Mesmo que provemos que a ponte-móvel em Alverca resolve melhor que a mega ponte Chelas-Barreiro por à volta de 5% do seu preço, não interessa. Mesmo que provemos que só o sistema de Alverca (1 pista partidas-chegadas + 1 pista só partidas) pode processar 65M de passageiros quando a procura EUTROCONTROL é de 42 a 50M, não interessa. Mesmo que provemos que a fusão de dois aeroportos permite poupar mais de 10 mil milhões de euros ao mesmo tempo que enforma o mais competitivo HUB europeu, não interessa.

Por que será que o “sistema” ataca com tanto denodo a inovadora solução HUB Alverca-Portela?

A VINCI sabe, pela sua experiência de pistas paralelas, que quando o afastamento transversal entre elas é inferior a 3MN (5,5km), o procedimento nas trajetórias de aproximação é o afastamento vertical de 300m. Na reunião de 2017 foi até referido à VINCI, pela semelhança com a nossa solução, que os seus (é acionista) dois aeroportos parisienses vizinhos – CDG e Bourget – com pistas paralelas entre si, operam de forma “independente” com um afastamento transversal de 2,4km.

Contudo, vejamos a sequência: no EIA Montijo aparece a NAV mencionando que a pista Alverca precisa de um afastamento de 5MN (9,3km), o que serviu de justificação à APA para chumbar Alverca como alternativa. O ICNF colocou um refúgio de aves no mouchão sabendo que havia um uso alternativo de pistas aeronáuticas. Depois o ministro da tutela foi de propósito à televisão informar (com desenho) que a pista Alverca, segundo os técnicos, ficava no meio do rio porque o afastamento mínimo era 3MN (5,5km), o que, curiosamente, a VINCI, com expertise na matéria, não desmentiu. A CML (liderada então pelo atual ministro das Finanças) copia a solução, mas troca o nome de Alverca pelo nome Montijo. Os representantes da Ordem dos Engenheiros e da Ordem dos Economistas repudiam as soluções duais (sem perceber que Alverca-Portela funciona como um só aeroporto). E a Comissão nomeada eliminou o HUB Alverca-Portela do processo ainda antes de ter equipa técnica.

Até o próprio representante do município de Vila Franca de Xira, que já perdeu a ilusão da aviação executiva (está confirmado o desvio da Portela para o aeródromo de Tires) e conhece o risco de Alverca ver a OGMA abalar para um novo aeroporto, prefere ficar de mãos vazias e ir apanhar o avião a qualquer outro lado.

É muito estranho. Será que a inovadora solução HUB Alverca-Portela é assim tão má?

Ou será porque é muito boa?

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