Opinião | 08-11-2023 21:00

O tempo não volta para trás, mas há injustiças que ainda podem ser reparadas

Emails do outro mundo

Desapontado Manuel Serra d’Aire

Desapontado Manuel Serra d’Aire
Dissertas no teu último e-mail sobre a banalidade do aplauso, do elogio, da consagração pública em relação às mais diversas expressões artísticas e seus protagonistas. Acompanho-te. Há realmente por aí muita fancaria a fingir diamantes, como escreveu na bela canção Bellevue o Rui Reininho, dos GNR. Mas se nem tudo o que luz é ouro, também é verdade que com o andar dos anos vamos tendo outro grau de exigência e a filtrar com mais apuro tudo o que nos querem enfiar goela abaixo. Os artistas de hoje se calhar não são assim tão maus, nós é que nos tornamos mais rigorosos. Usei calças à boca de sino quando era puto e ainda hoje recupero do trauma.
É normal que os muros altos e as estradas largas da nossa infância pareçam adereços do Portugal dos Pequenitos passadas umas décadas. Os lugares são os mesmos, nós é que somos outros. O mesmo se passa em relação aos políticos. Ouvimos com frequência a frase feita de que já não há políticos como antigamente. Já nem falo dos saudosistas do Salazar e do Portugal do pé descalço, mas sim dos que idolatram com frequência a plêiade de políticos do pós-25 de Abril ou as primeiras gerações de autarcas. O tempo conferiu-lhes lustro. Estivessem eles ainda hoje no activo e gostaria de ver, ouvir e ler o que não se diria deles. Recordo-me bem do que diziam nos cafés e escreviam nas paredes (as redes sociais da altura) sobre o Soares, o Sá Carneiro ou o Cunhal. E olhem que não era bonito. O tempo aplica esse verniz, bem sublinhado pelo velho ditado “atrás de mim virá quem de mim bom fará”. Daqui a uns anos vamos ter saudades do Costa, como hoje já temos do Passos...
E até deve haver quem já tenha saudades do ex-presidente da Câmara de Santarém Rui Barreiro, quadro superior do Ministério da Agricultura que anda metido numa embrulhada laboral. Para se tentar safar à penalização invocou direito à amnistia no âmbito da visita do Papa à Jornada Mundial da Juventude, ao abrigo de uma alínea qualquer. Veremos se os deuses estão com ele. O MIRANTE deu a notícia na anterior edição e no texto diz-se que “não se conhecem feitos de monta” ao militante socialista, que actualmente é autarca na Assembleia Municipal de Santarém. É dessa apreciação que discordo.
A um homem da província que conseguiu ser secretário de Estado, director regional de Agricultura do Alentejo e presidente da Câmara de Santarém, para além de outros ‘tachos’ na esfera da administração pública, não faltam feitos de monta para ostentar. Assim de repente recordo-me de dois que merecem um diploma chapado na parede da sala, por cima da lareira: o de ter, enquanto secretário de Estado, reaberto a desactivada caça ao melro, o que pôs meio país a rir e outro meio a protestar; e o de ser até à data o único presidente da Câmara de Santarém que não conseguiu ser reeleito após o primeiro mandato. São façanhas únicas que seria de elementar justiça obterem o reconhecimento do Presidente da República no próximo 10 de Junho, ele que condecora tudo o que mexe…
Que São Martinho te proteja
Serafim da Neves

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