Opinião | 20-12-2023 21:00

Já não há respeito pelos técnicos, nem pelos independentes e ainda menos pelos utentes

Emails do outro mundo

Implacável Manuel Serra d’Aire

Implacável Manuel Serra d’Aire
Aproxima-se o Natal e o país entrou em êxtase porque há novidades acerca do novo aeroporto, falado há mais de meio século. Uma comissão técnica independente (CTI) apresentou um relatório preliminar onde aponta duas opções viáveis para a construção do dito cujo: uma no campo de tiro da Força Aérea, em Benavente, e outra em Vendas Novas. Vindo o relatório de uma comissão dita técnica (logo composta por conceituados especialistas e não por Galambas e afins), e para mais independente, seria suposto que fosse acolhido com reverência, como sentença inatacável. Só que não foi bem assim e depressa se chegou à conclusão que o país tem pouco respeito pelas aprofundadas avaliações de técnicos independentes. O que se ouviu depois do anúncio da CTI foi um coro de contestação, com uns a defenderem o Montijo, outros Santarém, outros Alverca ou Ota e outros coisa nenhuma. Enfim, parecia que estávamos na tasca a discutir a decisão do VAR sobre um daqueles penáltis manhosos em que o nosso futebol é fértil…
A avaliação de localizações do novo aeroporto devia ser uma coisa séria. Mas que pode um leigo na matéria como eu pensar da credibilidade de um processo e de um relatório técnico que, logo à partida, não acerta na geografia nem na toponímia de uma das localizações? É que a opção Alcochete ou Campo de Tiro de Alcochete, como tem sido designada, localiza-se maioritariamente no concelho de Benavente, apanhando ainda uma área do concelho do Montijo; e a base militar chama-se, desde 2009, Campo de Tiro da Força Aérea e não de Alcochete. Depois dos famosos ‘turistas de Alcochete’, está inventado o aeroporto de Alcochete...
Uma vantagem potencial da escolha da erradamente chamada opção Alcochete foi a das acessibilidades ferroviárias. Santarém teve má nota porque o aeroporto seria servido pela (hoje) congestionada Linha do Norte enquanto Benavente conseguiu a proeza de ser considerada uma opção bastante vantajosa apesar de não haver vestígios de caminho-de-ferro por aquelas bandas. Aí, a comissão de especialistas recorreu à realidade virtual ou inspirou-se em Júlio Verne e imaginou o comboio de alta velocidade já a passar entre os chaparros da margem sul depois de ter atravessado a virtual terceira travessia sobre o Tejo. Obviamente, sem congestionamentos e sempre à tabela porque na realidade virtual funciona tudo às mil maravilhas.
O nosso Serviço Nacional de Saúde está à beira do colapso e com essa triste realidade abriu-se um novo nicho no mercado do protesto. As comissões de utentes proliferam por estas bandas e é rara a semana em que não há manifestações, abaixo-assinados, concentrações e encontros. A coisa chegou a tal ponto que, em algumas zonas, já há várias organizações de utentes a competir para ver quem grita mais alto e com palavras de ordem mais assertivas, a reclamar mais médicos e melhores cuidados de saúde. Infelizmente, quer-me parecer que a eficácia destes protestos está como a resposta do SNS: sem remédio à vista.

Boas Festas do
Serafim das Neves

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