Opinião | 27-12-2023 21:00

Perdidos na necrologia digital, entre urnas de mogno e velórios com mini folhados de salsicha e à procura de imigrantes asiáticos

Emails do outro mundo

Ovante Serafim das Neves

Ovante Serafim das Neves
Aqui há dias, alguém que sabe mais de jornais do que a NASA de foguetões, disse-me que, com tantos jornais a morrer, o tema principal do congresso de jornalistas marcado para Janeiro deverá ser a necrologia.
Se assim for, os congressistas vão ter que se debater muito para chegar a algum lado porque a necrologia há muito que se reinventou, digamos assim, estando agora esparramada por mil e uma páginas de Facebook de agentes funerários, onde os mortos ficam eternamente num limbo digital, entre anúncios de transladações, urnas de alta cilindrada, cremações, flores e serviços de velório com chá, café e mini folhados de salsicha.
Jornais, jornalistas e jornalismo também ganharam nova vida quando passaram do papel para a internet. Tudo começou quando foi proibido embrulhar peixe e castanhas assadas em jornais velhos e quando os pintores da construção civil deixaram de usar jornais velhos para tapar o chão, evitando pingos de tinta, e as donas de casa (perdoem-me o arcaísmo jurássico), optaram pelos detergentes para lavar os vidros em vez de os esfregarem com folhas de jornal.
A senhora que dava uma vista de olhos às gordas, salvo seja, enquanto amanhava os carapaus; o trolha que ficava a saber da contratação de um novo avançado para o seu clube, entre duas pinceladas na parede, ou o pacato cidadão que se informava sobre o aumento das pensões enquanto comia castanhas assadas ou folheava revistas e jornais velhos na sala de espera do dentista, passaram a ler muito mais através dos telemóveis. E informações cada vez mais interessantes.
A democratização foi avassaladora e a liberdade inundou a nossa vida. Já é possível sabermos tudo e mais alguma coisa, de borla e à medida dos nossos desejos. A vida íntima da nossa vizinha, as corrupções dos políticos, as operações de mudança de sexo de pessoas lá da terra ou os negócios de droga de quem nos recusou o subsídio. E para além de leitores, todos podemos ser jornalistas.
Os assuntos são aqueles que o tal algoritmo gentilmente nos oferece evitando-nos a estafa de os seleccionar. A verdade é aquela que mais nos agrada. A única limitação é a imaginação, mas teremos sempre a ajuda da Inteligência Artificial. É um avanço civilizacional, ou não é??
Quem defendia que os jornais e jornalistas deixavam de o ser quando, em vez de informação relevante passassem a dar apenas a informação que os leitores queriam, estava errado. Quem se queixa da falta de leitores é porque não sabe da arte. Mas isto tudo não surgiu de repente. Foi uma luta de anos e anos e há que dar mérito a muitos editores, chefes de redacção e jornalistas que, apesar das resistências, sempre tiveram como lema: “Não deixes que a verdade te estrague uma boa história”.
Uma boa história é a da escolha de um local para o novo aeroporto. Agora a sugestão foi Alcochete que afinal não é Alcochete, mas Benavente. Com o novo Governo e com uma nova comissão, nomeada pelo novo Governo, sabe-se lá o que se irá passar. Nem isso importa muito porque o objectivo de há 50 anos para cá é animar o povo e promover o debate de café. E depois da escolha ainda é preciso construí-lo e isso demora anos. E são precisos muitos imigrantes para as obras... se os deixarem vir para cá.
Saudações natalícias
Manuel Serra d’Aire

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