Opinião | 29-01-2024 07:00

A César o que é de César

Na última assembleia de apresentação de contas a irmandade ficou a saber que a situação financeira na Misericórdia de Santarém é grave, ou muito grave. O passivo tem vindo a ser resolvido pela alienação de património e pelo consumo das doações ( : ) A posição da nova mesa mostra que ou não esteve atenta ou está a viver uma realidade alternativa.

Na edição de 19 de janeiro do Correio do Ribatejo foi dado destaque à tomada de posse dos órgãos sociais da Santa Casa de Santarém. As declarações, feitas pelos responsáveis assustaram-me. Retirando as frases de enchimento, foi dito pretenderem construir uma (nova) unidade de cuidados continuados, junto ao lar de S. Domingos. Construir uma nova ERPI (lar) em S. Domingos, por o actual, a funcionar no antigo hospital, alegadamente “não cumprir a desejada funcionalidade”, construir um museu (!). Intervir na praça de toiros, garantir a abertura de um centro de acolhimento de emergência social. Valorizar o património com “estudos, investigações e publicações”. Criar um prémio escolar para os filhos dos colaboradores. Ainda “rentabilizar os imóveis que estão na posse de Misericórdia em benefício da população”. Estas declarações do lado “deve” do balanço, já do lado do “haver” dizem, apenas, que pretendem “estimular doações e legados”. Com isto, consideram, haver uma “visão clara e abrangente” para a instituição.
Não tenho por hábito vir a público comentar instituições a que pertenço, sempre que a sua realidade é discutida dentro da instituição, em assembleia. Mais ainda em instituições tuteladas pela Igreja, onde é suposto a mão direita não saber as actividades da esquerda. Contudo a forma pública, imprimida por esta nova mesa, de publicitar, como se estivesse numa campanha autárquica o que pretende fazer, leva-me a abrir uma excepção. É que a visão pode ser abrangente, mas não é clara e sobretudo é errada. Na última assembleia de apresentação de contas a irmandade ficou a saber que a situação financeira é grave, ou muito grave. O passivo tem vindo a ser resolvido pela alienação de património e pelo consumo das doações. Ou seja, nos últimos anos, a misericórdia em vez de aumentar a sua independência financeira, para poder cumprir a sua missão, tem vindo a reduzi-la e a delapidar património. A posição da nova mesa mostra que ou não esteve atenta ou está a viver uma realidade alternativa. Creio que nem o actual provedor, nem a vice-provedora alguma vez foram mesários. Percebe-se assim que desconheçam a dinâmica da instituição. A Santa Casa é um dos braços armados da Igreja, na sua intervenção social, como a Cáritas. Não compete à Santa Casa dar circo, apenas pão. O circo fica para as estruturas políticas, como as autarquias. Todas as estruturas que não estão afectas ao seu “core business” servem exclusivamente para angariar fundos para este. Em tempos disse-me um provedor que a unidade de cuidados continuados dava prejuízo. Agora pretendem aumentá-la em vez de equacionarem o seu fecho. Como na vida, se um membro está infectado, ou se trata ou terá de ser cortado, para não infectar o resto do corpo.
Hoje 60% da população portuguesa vive de apoios. É pobre. Vivemos tempos altamente conturbados em termos económicos com uma inflação não controlada. Com juros altos, com instabilidade global. Acresce que as comparticipações do Estado têm subido menos que a inflacção!
Os projectos que têm sido apresentados, pelas mesas, não têm adesão à realidade. Não são rentáveis, ou pelo menos não o são para a Santa Casa. Lembro que foi apresentado um “projecto” que pretendia arrendar metade da monumental por 200€/mês! por décadas. Os projectos desenvolvidos nunca o foram pelo lado da rentabilidade do espaço, mas por razões estéticas ou outras.
Lembro que, contrariamente a uma autarquia, uma misericórdia pode falir, pelo que o que se propõe é exactamente o contrário do que, entendo, a Misericórdia terá de fazer. Deverá depender cada vez menos de legados e doações optimizando o seu património, mas para benefício das suas valências não da população em geral. A população usufruirá quando e se for utente. A função da misericórdia não é promover espectáculos, não é ter museus, não é dar circo à população é dar pão e carinho a quem precisa, sobretudo aos idosos e às crianças.
Estranhamente, edifícios como o antigo hospital (conventos) têm sido adaptados para hotéis, de luxo. Dizem que não o podem fazer para um lar?
Para finalizar lembro que das 14 obras de misericórdia, apenas 5 implicam custos e mesmo assim…dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus; dar pousada aos peregrinos, assistir aos enfermos. As restantes são intangíveis: Visitar os presos, enterrar os mortos, dar bons conselhos, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os tristes, perdoar as injúrias, sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo, rogar a Deus por vivos e defuntos. Não vi nas “propostas” um átomo destas máximas “constitucionais” das misericórdias.
As mesas e os seus provedores tendem a ser discretos, as obras (de misericórdia) são para serem apreciadas por Ele, na hora em que Ele assim o entender. Já a gestão diária é para ser criticada por quem se preocupe com o futuro, nomeadamente o Conselho Fiscal


António Rocha Pinto

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