Opinião | 07-03-2024 07:00

A região do Ribatejo e a sorte grande chamada José Saramago

Metade do mundo sabe que muito do vinho alentejano engarrafado é feito de uvas de vinhas ribatejanas. O Ribatejo acabou como marca e o Alentejo é cada vez mais uma marca internacionalizada e famosa. Oportunidade para voltarmos a José Saramago e à sorte grande de termos um escritor que é mais comemorado em Lanzarote, Mafra e Lisboa que na terra onde nasceu.

Quem ler as Pequenas Memórias de José Saramago fica a saber que a história de vida do autor de Memorial do Convento passa também pela Chamusca quando ele atravessava o rio e ia ao encontro de um familiar que guardava gado nos campos da Chamusca. O que me leva a falar do assunto é o facto de receber durante o ano vários convites para acompanhar visitas a vários caminhos de Saramago, de Lisboa a Lanzarote, de Mafra ao grande Alentejo. Foi neste último território, hoje cada vez mais desertificado, que Saramago se escondeu do mundo para escrever Levantado do Chão que o catapultou para o êxito e a conquista de milhões de leitores. O génio do escritor da Azinhaga levantou voo e poucos anos depois surgiram as obras que deixaram de ser só novidade no trato da escrita e da composição dos textos, para serem também literatura de génio, prosa de um grande espírito criador.
Falo do assunto porque a Chamusca e a Golegã podiam juntar-se para organizarem os caminhos de Saramago na terra onde o escritor nasceu e conheceu o mundo. Do lado da Chamusca governa um político, Paulo Queimado, que é uma ave rara que provavelmente nunca leu um livro depois de ter acabado a escola; do outro lado está um novo presidente, António Camilo, ainda a apalpar terreno e pelo que sei a estudar o assunto, mas sem coragem de dar o passo em frente.
A região do Ribatejo está quase a deixar de ter campinos, toiros e qualquer dia só tem a memória das tradições. Aliás, a região do Ribatejo já nem se chama Ribatejo para alguns produtos, como, por exemplo, os vinhos que passaram a denominar-se como marca "Vinhos do Tejo", considerado pelos seus autores “uma evolução”, porque “os vinhos ribatejanos tinham fama de baixa qualidade”. Enfim, quando se tem tudo, como uma marca famosa chamada Ribatejo, os vinhos escolhem a marca Tejo e mandam o Ribatejo às urtigas porque os vinhos de antigamente tinham má fama (embora metade do mundo saiba que metade dos vinhos engarrafados alentejanos são desde há séculos feitos com uvas compradas no Ribatejo, onde sempre houve mais fartura e variedade. E eles mantiveram a marca porque os alentejanos são tudo menos parvos). Para ser verdadeiro acho que o autor desta ideia tem os fusíveis queimados e quem foi na cantiga para lá caminha.
A Chamusca é cada vez mais uma terrinha que vive das festas da Ascensão e dos cantores pimbas e do romance, sem ficção, entre dois políticos que devem dormir mais do que governam. O resto é charneca, terra do campo e casas em ruínas. A Golegã sempre tem o museu do grande Martins Correia, mal divulgado, diga-se de passagem, a Casa Estúdio Carlos Relvas, um centro cívico ganho à custa de uma feira secular, e é sobretudo morada do grande José Saramago, que tem um Nobel na Obra que vai ficar para sempre.

Como estamos em tempo de eleições lembrei-me de desafiar os leitores a procurarem nos tempos de antena dos partidos políticos o testemunho de figuras públicas ligadas à cultura, à economia e à sociedade civil. Já agora tentem ver se aparece algum militar de Abril a fazer campanha eleitoral em nome dos partidos do arco do poder. Népia. Agora o Álvaro Cunhal é um tipo que parece que saiu ontem do colégio; Mário Soares é um rapaz barbudo que diz como José Sócrates que as dívidas do Estado não são para pagar; o PSD tem um advogado como líder a quem António Costa pregou a partida de obrigar a disputar eleições em tempo recorde, sem lhe dar tempo de arrumar a casa laranja, o que lhe pode custar muito caro. JAE .

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