As universidades seniores, os meios de comunicação regionais e o desenvolvimento local
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Os meios de comunicação deviam viver mais da participação dos cidadãos. E os alunos das universidades seniores podem ter um papel diferenciador nessa participação.
“Os meios de comunicação regionais e o desenvolvimento local” foi o título que a RUTIS deu a uma das intervenções de abertura do seu Congresso que reuniu em Óbidos no passado dia 20 de Fevereiro. Fica aqui o essencial da palestra que proferi para cerca de centena e meia de pessoas que estavam na sessão de abertura.
Os meios de comunicação regionais e locais são a única voz de uma região que leva para fora de portas aquilo que só a nós nos interessa. Por isso é tão importante a sua existência. Se dependermos em termos de desenvolvimento regional do escrutínio que o poder de Lisboa tem sobre o nosso território, nunca mais passamos da cepa torta, e a RTP e os organismos do Estado, que têm tutelas mais fortes que ministérios, arrasam orçamentos e todos juntos são um perigoso poder paralelo que nos governa quase há 50 anos.
Se há coisas de Abril que faltam cumprir é a distribuição dos incentivos do Estado em igualdade de circunstâncias para os que gravitam na grande nave do Terreiro do Paço e os outros que vivem no bairro, na charneca, na lezíria ou na grande paisagem que é todo o interior do país.
É evidente que sem imprensa de proximidade não há escrutínio. Se não houver imprensa de proximidade não há descentralização, se há coisas que matam todos os dias um pouquinho a nossa democracia é a falta de escrutínio, ou então a tentação de escrutinar para além do razoável, que é o que está a acontecer nesta altura com a mudança de cadeiras que se deu na Assembleia da República. Caiu o Carmo e a Trindade em S. Bento porque um determinado partido elegeu como deputados pessoas que não estão a respeitar o que era regra no parlamento.
Os meios de comunicação deviam viver mais da participação dos cidadãos. E os alunos das universidades seniores podem ter um papel diferenciador nessa participação. Os meios só têm a ganhar se aceitarem textos de opinião dos cidadãos que vivem e pensam o território e no território. Se os professores e os alunos se empenharem nessa missão de escreverem textos e gravarem depoimentos para enviarem aos meios, tenho a certeza que serão bem recebidos.
Os textos mais lidos de O MIRANTE são as entrevistas e as reportagens que retratam os dirigentes associativos e as suas colectividades, os textos que põem a nu as injustiças sociais, os textos das rubricas onde damos voz aos cidadãos que têm uma história para contar.
Os alunos das universidades seniores podem mudar em parte a linha editorial de um meio de comunicação social se organizarem e souberem como intervir no meio onde vivem e trabalham. O que cada um de nós tem para ensinar ou influenciar uma redacção de jornalistas é tão ou mais importante que colaborar apenas como leitor ou ouvinte. Não vou deixar aqui o anúncio de uma ferramenta ou apontamentos sobre como a universidade sénior e os seus alunos podem ser diferenciadores no debate sobre o desenvolvimento regional. Deixo a minha disponibilidade para ser parceiro de quem quiser arriscar aceitar esse desafio e desconstruir essa ideia de que estamos condenados a ver e ouvir televisão, sempre com o coração apertado, porque está tudo em guerra, e as desgraças e os mortos entram pela nossa casa como se o nosso reduto fosse um mesmo cenário de guerra, que dá continuidade às reportagens que chegam do fim do mundo, e que, na maioria dos casos, nem precisam da intervenção de jornalistas para serem contadas. JAE.