A preta do poema, que não pode entrar na Assembleia Municipal de Tomar e a relação entre remessas de imigrantes e bundas
Arguto Serafim das Neves
Arguto Serafim das Neves
O poeta António Gedeão escreveu, em 1961, o poema Lágrima de Preta, que começa com os versos: “Encontrei uma preta/Que estava a chorar/pedi-lhe uma lágrima/ Para analisar”. O poema foi depois cantado, com música do José Niza, originalmente por Adriano Correia de Oliveira, em 1971, e mais tarde por outros.
Pelo que sei, a censura dessa época, proibiu a canção de passar na rádio. E, pelo que li há dias, também poderá vir a ser proibida a divulgação, tanto do poema como da cantiga, nas sessões da Assembleia Municipal de Tomar, por fazer alusão à raça da dadora da tal lágrima.
Se o presidente da assembleia censurou o eleito do PSD, António Lourenço Marques, pelo do uso da expressão: “Cá estão os pretos para trabalhar”, explicando que ali não são permitidas menções a raças de pessoas, será que deixa entrar na sala a preta do Gedeão, digamos assim?
E já agora, ele também poderia ter sugerido ao António Lourenço Marques a mudança do nome. Lourenço Marques era a capital de Moçambique no tempo da colonização. Para quê manter essa referência colonial, em vez de adoptar o novo nome da cidade, passando a chamar-se, António Maputo?
O eleito António Maputo…perdão…António Lourenço Marques, foi censurado por usar a expressão, “cá estão os pretos para trabalhar”. Muitos outros serão censurados por outras expressões como: “trabalhar como um galego”; “fazer judiarias”; “não ter dinheiro, nem para mandar cantar um cego”; “cada macaco no seu galho”; “quando um burro zurra, o outro baixa as orelhas”, etc, etc, etc…Será que esta limpeza linguística vai fazer de nós melhores cidadãos? Mais cultos? Mais progressistas? Mais tolerantes?
Em 2009, O MIRANTE publicou uma reportagem sobre uma tradição de domingo de Páscoa que era cumprida em Cem Soldos, Tomar, a terra do Festival dos Bons Sons, denominada “A matança dos Judeus”. A coisa começava com um cortejo de jovens com canas enfeitadas com flores e terminava com a destruição das mesmas, no portal da igreja. Presumo que já não se faça. As tradições tanto podem ser para preservar como para erradicar. Tudo depende das modas, dos ventos, dos bombardeamentos…
Um destes dias, na secção de economia de um jornal - daqueles jornais que têm secção de economia e tudo - a fotografia que acompanhava uma notícia sobre o aumento do envio de dinheiro dos imigrantes brasileiros para o seu país, tinha em primeiro plano, um rabo bem robusto, de uma senhora, a passear numa rua.
Esta associação do crescimento das remessas para o Brasil com uma bunda, é inovadora e vem dessacralizar a aridez do noticiário económico. Não tarda temos as notícias sobre a subida ou descida dos juros patrocinada pelo Viagra.
Assim se conquistam leitores como eu, que costumam passar pela secção de negócios como cão por vinha vindimada. Afinal de contas também passei a ver os noticiários televisivos no Verão por causa das reportagens nas praias. A propósito, por exemplo, do surgimento de algas num areal, enquanto se ouvem declarações de especialistas, vão passando imagens de nalgas… de banhistas ao sol.
Saudações assumidamente incorrectas
Manuel Serra d’Aire