Santarém é atar e pôr ao fumeiro

Só o Centro Histórico da cidade de Santarém é que ainda não é “atar e pôr ao fumeiro”. Como todos sabemos, é um circo perceber como é que alguém consegue fazer obras na sua própria casa, quando os técnicos e os gabinetes técnicos são parte de um exército de sanguinários, ao serviço do Estado, que ainda usam a velha e carcomida espada de D. Afonso Henriques para impedir qualquer atentado ao património.
O futuro aeroporto internacional de Lisboa está destinado aos terrenos do campo de tiro situado no concelho de Benavente. Santarém tinha um projecto que parecia irrecusável por ser investimento privado, e ficar fora da concessão da Vinci, que tem o monopólio de todos os aeroportos em Portugal, mas o Sistema é impenetrável, e o país de José Sócrates e Ricardo Salgado só muda quando mudarem as mentalidades.
Na altura da escolha do campo de tiro, Santarém ficou de fora como já tinha ficado Alverca, as duas hipóteses por razões infundadas e muito mal explicadas, nomeadamente a de Santarém que, diz o relatório, por interferir com o espaço aéreo de Monte Real, o que parece surreal mas não é, mostra a lógica dos amplos poderes de quem manda e é Dono Disto Tudo.
Resumindo: quem ganhou, aparentemente, foram os portugueses que não querem os vícios da nova civilização nos seus territórios. Que os lusitanos se esmifrem uns aos outros na área metropolitana de Lisboa, que façam mais três travessias sobre o Tejo na área de Lisboa, que transformem a capital num CCB gigante, ligado por túneis com o teatro S. Carlos, o teatro Dona Maria, a Torre de Belém, as lojas de pastéis de nata, a Rua Augusta, o restaurante da filha do Senhor Amorim na Avenida da Liberdade e, já agora, os bordeis de luxo que crescem como cogumelos na áreas residenciais, também de luxo, do Chiado e das Avenidas Novas, só para dar dois bons exemplos. E, já agora, que deixem o resto do país para os pastores de cabras e de sonhos, os vencidos da vida, os trolhas e os poetas populares e artesãos, mais os outros todos que só habitam o território ao fim-de-semana e vivem o melhor dos dois mundos.
Recentemente ouvi números que garantem que o passe ferroviário verde que o governo de Luís Montenegro estendeu até aos utentes da CP que chegam a Santarém fez aumentar os utentes para (quase) o dobro. O problema agora é o estacionamento. Nesta altura a câmara está a receber protestos porque há pessoas a estacionarem onde não deviam nem é seguro, como aliás já acontecia antes.
Uma cooperativa de promotores de habitação, formada recentemente, está a iniciar a construção, perto da Quinta do Mocho, de duas dezenas de apartamentos T2 e T3 que dizem já ter cerca de duas centenas de pessoas interessadas, numa lista que promete aumentar, uma vez que as reservas começam em breve. Os preços variam entre os 150 e 200 mil euros. Comparado com o que custa um apartamento em Lisboa, ou na região de Lisboa, estamos a falar do mesmo que entregar um aeroporto aos tipos da VINCI, ou a um promotor privado que pouparia ao Estado português biliões de euros, sim, biliões; no caso de dinheiro bem distribuído pela economia do país provavelmente seria o suficiente para ficarmos todos com o nível de vida dos países mais ricos do mundo.
Só o Centro Histórico da cidade de Santarém é que ainda não é “atar e pôr ao fumeiro”. Aliás, os comerciantes da cidade andam a pedir S. José, o padroeiro, que alguém se ofereça para a associação da classe não morrer e haver vozes de contestação que não deixem os políticos dormirem na fôrma, e também eles se empenhem em contribuir para o governo da urbe. Como todos sabemos, principalmente quem mora e nasceu aqui, a população do Centro Histórico da cidade é quase toda descendente dos antigos monarcas, e os que não o são gozam com os que são, e é um circo perceber como é que alguém consegue fazer obras na sua própria casa, quando os técnicos e os gabinetes técnicos são parte de um exército de sanguinários, ao serviço do Estado, que ainda usam a velha e carcomida espada de D. Afonso Henriques para impedir qualquer atentado ao património, ou seja, tudo o que no Centro Histórico não for uma ruína não tem valor para os mangas de alpaca.
A crónica não pretende ser humorística, embora neste último parágrafo tenha resvalado para a anedota. Mas não é o que apetece depois de uma pessoa viver numa cidade, neste último meio século, e tudo o que devia ser “atar e pôr ao fumeiro” é quase, como diz outro provérbio “preferirmos viver eternamente arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica”? A luta política que se adivinha com as eleições autárquicas talvez nos ajude a perceber melhor o que é que falta darmos aos mangas de alpaca dos ministérios de Lisboa para nos largarem da mão e deixarem o centro histórico da cidade respirar, de preferência em obras, apoiadas pelos serviços técnicos e, quem sabe, até financiadas por programas especiais que o PRR’s desta vida deviam apoiar. JAE.