Mentiras que contamos sobre andar de moto (mas não admitimos)
Parar não é só vender a moto, é abdicar de uma rotina, de um espaço mental, de uma forma de estar que nos faz sentido. Muitos de nós não param, fazem pausas, e mesmo nessas pausas, a moto continua lá, na cabeça.
Vamos começar o ano com uma relação sincera entre nós, e para isso há que admitir algumas coisas: quem anda de moto conta mentiras, aos outros e (mais grave) a si próprio.
Algumas são pequenas, quase “inocentes”, outras uma espécie de mecanismos de sobrevivência. Quem se revê na lista ponha o dedo no ar...
“É só liberdade”
É, mas não só. É também desconforto, cansaço, stress e atenção constante.
Se fosse só liberdade, não chegávamos a casa exaustos depois de um dia inteiro em cima da moto, com o rabo quadrado e as costas feitas num 8. Mas é uma espécie de cansaço bom... a maior parte das vezes.
“Não tenho frio”
Tenho, e muito por vezes. Não tanto no corpo..., mas nas mãos, nariz e pernas. Só não quero admitir que já perdi a sensibilidade nos dedos há 20 km.
“A roupa de moto é confortável”
É ótima... até estares parado num semáforo a ferver ou a caminhar 200 metros, com um casaco que pesa 10 quilos e tem proteções rígidas por todo o lado, ou dentro de um fato de chuva horrível...
“Tenho tudo sob controlo”
Não temos. Temos experiência, atenção, margem, mas controlo total é uma ilusão confortável. Quem anda de moto e acha que controla tudo ainda não percebeu como isto funciona.
“Não me importo com a chuva”
Depende da chuva. Há chuva, e há um mar de água que entra em tudo quanto é sítio. Rapidamente aprendemos que há vários níveis de impermeabilidade e que nem todos aguentam a chuva das tempestades da moda agora. Truque: levamos roupa preta para ninguém perceber que temos água onde... não fica bonito ter.
“Esta moto é prática para tudo”
Para tudo, exceto:
• carregar compras
• levar coisas frágeis
• estacionar rápido
• sair sem planear nada
Mas sim, é prática.
“Já me habituei”
Não. Só aprendeste a sofrer em silêncio.
“No verão até é fresco”
É fresco enquanto andas, depois paras e derretes.
“O capacete não estraga o cabelo”
Estraga. Destrói. Humilha. Qualquer dia faço um artigo sobre isso...
“Tirar e pôr o capacete não custa nada”
Custa.
Sobretudo quando:
• tens brincos e mil piercings
• tens óculos
• tens pressa
• tens calor
• estás a suar
• tens necessidade de entrar para uma reunião sem parecer um bicho com cabelo de louca
“Cabe tudo na mochila”
Não... não cabe.
“É só descer da moto e entrar”
Nunca é “só”. É tirar luvas, capacete, arrumar coisas, procurar onde deixar tudo, prender a moto, parecer normal outra vez.
“Hoje vou com calma”
... esta nem vale a pena comentar.
“Os outros conduzem tãooooo mal”
Sim..., mas não só. Apontamos o dedo aos carros, aos telemóveis, às manobras estúpidas, e são centenas. Mas difícil é admitir que também abusamos todos os dias (eu não, mas conheço uns amigos assim)
“Quando quiser, paro”
Esta é das maiores. Não paramos nada! A menos que haja uma razão de força maior (muito maior) sabemos que é complicado.
Parar não é só vender a moto, é abdicar de uma rotina, de um espaço mental, de uma forma de estar que nos faz sentido. Muitos de nós não param, fazem pausas, e mesmo nessas pausas, a moto continua lá, na cabeça.
Um grande ano para todos, cheio de boas curvas.
Texto publicado originalmente na revista Andar de Moto de Janeiro de 2026


