Opinião | 04-12-2025 16:16

Mentiras que contamos sobre andar de moto (mas não admitimos)

Mentiras que contamos sobre andar de moto (mas não admitimos)
Susana Esteves. Jornalista e motociclista

Parar não é só vender a moto, é abdicar de uma rotina, de um espaço mental, de uma forma de estar que nos faz sentido. Muitos de nós não param, fazem pausas, e mesmo nessas pausas, a moto continua lá, na cabeça.

Vamos começar o ano com uma relação sincera entre nós, e para isso há que admitir algumas coisas: quem anda de moto conta mentiras, aos outros e (mais grave) a si próprio.
Algumas são pequenas, quase “inocentes”, outras uma espécie de mecanismos de sobrevivência. Quem se revê na lista ponha o dedo no ar...

“É só liberdade”
É, mas não só. É também desconforto, cansaço, stress e atenção constante.
Se fosse só liberdade, não chegávamos a casa exaustos depois de um dia inteiro em cima da moto, com o rabo quadrado e as costas feitas num 8. Mas é uma espécie de cansaço bom... a maior parte das vezes.

“Não tenho frio”
Tenho, e muito por vezes. Não tanto no corpo..., mas nas mãos, nariz e pernas. Só não quero admitir que já perdi a sensibilidade nos dedos há 20 km.

“A roupa de moto é confortável”
É ótima... até estares parado num semáforo a ferver ou a caminhar 200 metros, com um casaco que pesa 10 quilos e tem proteções rígidas por todo o lado, ou dentro de um fato de chuva horrível...

“Tenho tudo sob controlo”
Não temos. Temos experiência, atenção, margem, mas controlo total é uma ilusão confortável. Quem anda de moto e acha que controla tudo ainda não percebeu como isto funciona.

“Não me importo com a chuva”
Depende da chuva. Há chuva, e há um mar de água que entra em tudo quanto é sítio. Rapidamente aprendemos que há vários níveis de impermeabilidade e que nem todos aguentam a chuva das tempestades da moda agora. Truque: levamos roupa preta para ninguém perceber que temos água onde... não fica bonito ter.

“Esta moto é prática para tudo”
Para tudo, exceto:
• carregar compras
• levar coisas frágeis
• estacionar rápido
• sair sem planear nada

Mas sim, é prática.

“Já me habituei”
Não. Só aprendeste a sofrer em silêncio.

“No verão até é fresco”
É fresco enquanto andas, depois paras e derretes.

“O capacete não estraga o cabelo”
Estraga. Destrói. Humilha. Qualquer dia faço um artigo sobre isso...

“Tirar e pôr o capacete não custa nada”
Custa.
Sobretudo quando:
• tens brincos e mil piercings
• tens óculos
• tens pressa
• tens calor
• estás a suar
• tens necessidade de entrar para uma reunião sem parecer um bicho com cabelo de louca

“Cabe tudo na mochila”
Não... não cabe.

“É só descer da moto e entrar”
Nunca é “só”. É tirar luvas, capacete, arrumar coisas, procurar onde deixar tudo, prender a moto, parecer normal outra vez.

“Hoje vou com calma”
... esta nem vale a pena comentar.

“Os outros conduzem tãooooo mal”
Sim..., mas não só. Apontamos o dedo aos carros, aos telemóveis, às manobras estúpidas, e são centenas. Mas difícil é admitir que também abusamos todos os dias (eu não, mas conheço uns amigos assim)

“Quando quiser, paro”
Esta é das maiores. Não paramos nada! A menos que haja uma razão de força maior (muito maior) sabemos que é complicado.
Parar não é só vender a moto, é abdicar de uma rotina, de um espaço mental, de uma forma de estar que nos faz sentido. Muitos de nós não param, fazem pausas, e mesmo nessas pausas, a moto continua lá, na cabeça.

Um grande ano para todos, cheio de boas curvas.

Texto publicado originalmente na revista Andar de Moto de Janeiro de 2026

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