Opinião | 01-01-2026 07:00

100 anos de solidão e outros tantos de boas leituras

100 anos de solidão e outros tantos de boas leituras

Joaquim Veríssimo Serrão, Luís Pacheco e Rubem Fonseca são grandes personagens da cultura em língua portuguesa que em 2025 foram homenageados com a comemoração dos centenários de nascimento. Haverá outros, mas estes fazem parte da minha história de vida; por isso os recordo e deixo o convite para descobrirem as Obras.

2025 foi o ano do centenário de nascimento de Joaquim Veríssimo Serrão que escreveu um livro que devia ser matéria de estudo nas universidades, principalmente nos politécnicos da região, acima de tudo naquele que ajudou a fundar em Santarém. Não é a História de Portugal em vários volumes, é um livro que nos situa no tempo do 25 de Abril de 1974, que é uma lição sobre o que é a censura em tempo de liberdade, até onde é que um homem é capaz de dar o peito às balas mesmo sabendo que pode morrer dos ferimentos, a lição de vida de um homem que teve a coragem de escrever aquilo que também teve coragem para viver. O centenário do nascimento de Joaquim Veríssimo Serrão podia ter sido uma boa oportunidade para falarmos de políticas culturais, mas também de ética, de civismo, e desta desgraça que vivemos actualmente que é termos uma direita pífia a ocupar um terço das cadeiras da casa da democracia. Veríssimo Serrão era um Historiador, mas quis o destino que deixasse escrito um dos mais significativos testemunhos de quem esteve de um lado ainda não suficientemente estudado dos tempos da Revolução dos Cravos. Santarém falhou esta missão, mas outras oportunidades surgirão a seu tempo já que ninguém apaga a História que está em letra de forma. E Santarém um dia vai ter a importância que lhe atribuiu José Saramago em alguns dos seus livros, ou Almeida Garrett quando apelidou Santarém como “um livro de pedra”, ou Joaquim Veríssimo Serrão que deixou vasta bibliografia e testemunho sobre o amor à sua terra natal.


Não sou grande admirador da Obra de Luís Pacheco, embora lhe reconheça interesse. O denominado escritor maldito, comparado a Henry Miller ou Charles Bukowski, não me convence. O facto de ter rejeitado as normas literárias e sociais, vivendo muitas vezes na pobreza extrema, escrevendo uma prosa libertina, não fizeram dele um grande escritor, nem pouco mais ou menos. E depois de ouvir contar da boca de um familiar como era Luís Pacheco na intimidade, ainda fiquei a gostar menos. Mesmo assim deixou marcas na literatura e é adorado por muito boa gente. O MIRANTE fez-lhe duas entrevistas que republicamos neste ano de centenário de nascimento, o que demonstra que estivemos atentos apesar das diferenças de opinião. Reli recentemente “O Libertino Passeia por Braga”, é um dos seus livros mais famosos; para mim não passa de um livrinho, um livrinho que nasceu da necessidade de escrever sobre uma vidinha de m*rda que prova que nem tudo o que é libertino em livro é boa literatura. Tive ainda a sorte de ser amigo de um seu camarada de percurso literário, e de vida, o que fez aumentar a minha curiosidade biográfica e diminuir a admiração intelectual. Mas fica aqui o registo do seu centenário de nascimento, por ser uma figura incontornável do meio literário, atestado por duas biografias recentes, que são dois verdadeiros calhamaços, assinados por dois prestigiados biógrafos, um poeta e um critico literário.


2025 também foi o ano do centenário de nascimento de Rubem Fonseca, um escritor brasileiro, filho de portugueses transmontanos, emigrados para o Brasil. Descobri os seus livros há muitos anos e guardo recordações de muitos dos seus personagens que ainda hoje me perseguem quando vivencio, ou sou simples testemunha, de realidades kafkianas. Ainda o conheci no Rio de Janeiro, mas não cheguei à conversa com ele devido ao número de pessoas que o rodeavam e esperavam pela oportunidade de um autógrafo e de uma foto. São de sua autoria alguns livros que levava para o deserto se tivesse que viver como um exilado. Os seus livros retratam, num estilo seco e directo, a luxúria e a violência urbana, num mundo onde marginais, assassinos, prostitutas, miseráveis e delegados de polícia se misturam. A história através da ficção é também uma marca de Rubem Fonseca. Para protagonizar alguns de seus contos e romances criou um personagem antológico: o advogado Mandrake, mulherengo, cínico e imoral, além de profundo conhecedor do submundo carioca. Em 2003 ganhou o Prémio Camões. Como não era homem de vaidades não compareceu à entrega do Prémio na Biblioteca do Rio de Janeiro, mas veio a Portugal meses depois para receber a medalha de mérito municipal da cidade de Lisboa, e aproveitou para conhecer a terra dos seus pais. Ana Miranda escreveu um dos seus grandes romances inspirada na leitura de um poema de Rubem Fonseca sobre a vida amorosa do poeta Gonçalves Dias, e confessou em entrevista que “Rubem Fonseca acompanhou de certa maneira a feitura do livro “Boca do Inferno”, editado em 1989, o livro que lhe deu fama, “dando apoio, dizendo sempre, “É assim mesmo! Trabalho, trabalho e trabalho!”. Talvez graças a ele eu nunca tenha desistido do livro, porque foi um processo longo, foram dez anos de tentativas e encontros e desencontros, e desesperos e angústias. Ele mesmo dizia, “O primeiro livro é escrito com sangue”. JAE.

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