Opinião | 05-01-2026 16:03

Roubaram o rio Almonda

Roubaram o rio Almonda

Imaginem um rio sobre o qual foi construída uma fábrica. O rio nasce e logo ali, morre. Entra num buraco escuro e decadente: a fábrica. Entram águas cristalinas; saem águas russas. 100mts mais abaixo, depois de atravessar o subsolo industrial, o rio reaparece. Já não parece um rio; parece um esgoto. Ao lado, uma ETAR. Conseguem imaginar? Um rio que, após 100mts, já precisa de tratamento.

O Almonda e o Alviela são primos, nasceram ali para os lados do maciço calcário estremenho das Serras de Aire e Candeeiros , descendem de uma linhagem antiga e ilustre: os rios de nascentes cársicas. Ao longo de 150 milhões de anos passaram por ciclos de abundância e escassez. Hoje vivem um desses momentos baixos; muito baixos mesmo. Ambos foram roubados. Roubados da água, roubados do leito, roubados do ser.

Do Alviela, talvez o mais conhecido, muito se tem falado. Mais rebelde do que o primo, não se contentou com a região centro. Lutou, insistiu e conseguiu chegar à capital. Foram 100kms de obstáculos vencidos. Durante anos reinou, saciou a sede da capital do império. Mas foi sol de pouca dura: a invasão humana e a poluição relegaram-no para segundo plano.

A nascente do Almonda fica em Torres Novas, perto da localidade de Almonda, mas ainda mais próxima de Casais Martanes, de onde, do alto sobranceiro, se tem uma vista única sobre a serra e sobre a própria nascente. À primeira vista, em tempos de apps e GPS, pareceria fácil lá chegar. Não é. Os últimos duzentos metros. Um rendilhado de edifícios decrépitos, atalhos improvisados e arames farpados, fazem lembrar um cenário de guerra. O acesso a um lugar de beleza incomensurável é tudo menos simples.

O local da nascente é; ou melhor, seria; de uma beleza singular, não fossem as construções que a sufocam. O que ali acontece é um roubo descarado: ao país, ao mundo, a todos nós. Um crime cometido a céu aberto, diariamente, sem pudor.

Imaginem um rio sobre o qual foi construída uma fábrica. O rio nasce e logo ali, morre. Entra num buraco escuro e decadente: a fábrica. Entram águas cristalinas; saem águas russas. 100mts mais abaixo, depois de atravessar o subsolo industrial, o rio reaparece. Já não parece um rio; parece um esgoto. Ao lado, uma ETAR. Conseguem imaginar? Um rio que, após 100mts, já precisa de tratamento.

A fábrica em questão pertence a uma empresa cujo nome não vou referir, mas que começa por R, tem um V pelo meio e acaba em A. Já nem sequer mantém ali atividade produtiva. Dizem que é um museu, que a única máquina a funcionar é “para inglês ver”. Ainda assim, continua a poluir. Continua a explorar o local, a impedir o acesso à nascente, a tentar comprar terrenos da serra para garantir que pode continuar a roubar o Almonda a todos nós.

A dona Isabel, moradora no alto sobranceiro, contou-me que no passado a fábrica dava trabalho. Agora, nem isso. O antigo dono interessava-se pela população; hoje restam processos em tribunal, ameaças e o encerramento dos acessos à nascente.

Desci o rio até à foz. Passei por represas, noras, praias fluviais. Em Lapas, o Almonda bordeja uma rua inteira, criando um espaço aprazível: lugar de pesca, de descanso, de encontros. Falei com moradores que me contaram histórias de cheias e de poluição, mas também da força do rio e da sua importância para a agricultura local. Mais abaixo surge um dos ex-líbris: a passagem por Torres Novas.

Nada é mais bucólico do que uma cidade atravessada por um rio. Nos cafés ouvi relatos de poluição passada. “Agora está melhor”, dizem. “Mas de vez em quando…” Torres Novas podia ter feito mais. Podia ter impedido o crime da fábrica construída sobre o rio. Não o fez.

Continuei, rio abaixo até à foz no Tejo, atravessando o Paul do Boquilobo; lugar magnífico, mas também ele votado ao abandono. Será esta a sina das nossas reservas de água?

Voltei atrás. Na esperança de o que vi ser irreal. Não era.
Roubaram o rio Almonda. Roubámo-lo todos. A água. A beleza. A identidade.

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