Opinião | 07-01-2026 07:00

Carlos Reis, o pintor de Torres Novas que dá nome ao museu de referência da cidade

Carlos Reis, o pintor de Torres Novas que dá nome ao museu de referência da cidade
Miguel Montez Leal

No centro da cidade de Torres Novas encontramos o Museu Municipal Carlos Reis, que guarda parte do espólio deste pintor naturalista, especialista em retrato, paisagens e também pintor-decorador.

Nascido em Torres Novas em 1863, tornar-se-ia num dos mais conhecidos pintores retratistas e de paisagem dos finais do século XIX e primeiras quatro décadas do século XX.

Proveniente de uma família abastada e privilegiada da cidade do Almonda, Carlos Reis, filho e neto de médicos e de uma dona de casa, com origens fidalgas e proprietária, cedo rompeu os desejos que os seus pais tinham para si, arriscando numa carreira de artista, sempre menos segura e estável, mas para a qual estava talhado. Desde tenra idade revelou dotes para o desenho. Frequentou a Academia Nacional de Belas Artes durante uma década entre 1879 e 1889, com várias interrupções. Mais tarde participou em inúmeras exposições internacionais no Rio de Janeiro, em Buenos Aires, Barcelona ou Dresden. Foi nomeado director do Museu Nacional de Belas Artes, director do Museu Nacional de Arte Antiga, assim como do Museu Nacional de Arte Contemporânea. Seria também professor da cadeira de pintura de paisagem e professor honorário da Escola de Belas Artes em 1933.

Em vida foi consagrado e por diversas vezes homenageado, além de ter recebido, em 1933, a condecoração da mercê da Ordem de Santiago. Acabaria por falecer em Coimbra em 1940.

A cidade de Torres Novas, no norte da antiga província do Ribatejo, é conhecida pelo seu castelo, pelo seu centro histórico, e nos arredores pela Villa Cardílio, estação arqueológica que remonta ao período romano.

No centro da cidade encontramos o Museu Municipal de Carlos Reis, que guarda parte do espólio deste pintor naturalista, especialista em retrato, paisagens e também pintor-decorador. São obras suas as pinturas do Palace Hotel do Buçaco, da antiga Escola Médico-Cirúrgica, do Parlamento, assim como as que concebeu no salão nobre da Câmara Municipal da Lousã, no Museu de Artilharia, ou as decorações que fez para o palácio lisboeta do Marquês de Valle Flôr (actualmente um famoso hotel em Alcântara), entre muitos outros edifícios públicos.

A sua paleta cromática parecia absorver os tons e matizes do que observava na paisagem portuguesa e os seus retratos fazem as suas figuras ganharem uma tridimensionalidade que as faz destacar do fundo da tela. Em vida viajou muito pelo território nacional e por França onde foi aluno de muitos pintores franceses, também, consagrados.

Quando jovem, os pais tentaram afastá-lo da sua paixão pela arte, então considerada pouco conveniente. Um artista era um operário no século XIX e a sua vida era sempre irregular e atribulada. Os pais mandaram-no para Lisboa para trabalhar como marçano numa loja de um parente. De nada lhes valeu, o seu filho perseguiu o seu sonho e paixão. Espantam-me sempre as famílias em que filhos, pais e avós mantêm a mesma profissão e quase partilham um mesmo destino. Não será apenas educação, o ambiente onde se cresce, ou questões patrimoniais, talvez sejam, também, um espartilho a que poucos conseguem fugir. Carlos Reis fez tudo isso e muito mais e de toda a sua “dinastia”, ao fazer o que gostava, tornou-se o mais conhecido. Não entro em minudências e intimidades que só a própria família de Carlos Reis saberá.

Quanto a Torres Novas, este pequeno museu municipal merece uma demorada visita. Ali se reconstituiu parte do que foi um dos seus muitos ateliers e se encontram algumas das suas obras, pois a maior parte encontra-se espalhada por museus nacionais, no estrangeiro e em colecções privadas.

O Rei D. Carlos foi um dos seus protectores e financiadores e à época até se fazia o trocadilho de Carlos Reis e Carlos, Rei. Eram muito próximos e conviveram, embora se saiba que um rei não tem propriamente amigos, mesmo um rei constitucional como D. Carlos, que viveu no seu mundo espiritual e político, mas que sentiu na pele a solidão do poder.

Carlos Reis merece ser mais conhecido e divulgado. Os museus municipais vivem sempre tolhidos por orçamentos baixos, que os impedem de concretizar os fins para que foram criados. Em Portugal continua a considerar-se a cultura, coisa de elites. Alguns políticos têm repetidamente afirmado que os portugueses primeiro precisam de uma casa, de um emprego e só depois de cultura. Pois eu tenho opinião exactamente contrária. Sem cultura e sem educação não alargamos horizontes, e não é desta forma que alcançamos a plena cidadania. Esta opção política é propositada, ou é inconsciente?

Muitos portugueses não conhecem o seu país. Cada um vive agarrado à sua província e terra natal, sempre acantonados e em clima de subtil ou pronunciada rivalidade, assente em ideias pré-concebidas, ou de cartaz turístico que já vêm de antanho.

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