E se um dia deixássemos de andar de moto?
É verdade que a moto não nos poupa, mas isso não é necessariamente mau. Ela obriga-nos a estar ali, num mundo que anda em piloto automático, a presença que ela nos exige é viciante.
Esta é uma daquelas perguntas que empurramos para aquele sítio onde colocamos as coisas sobre as quais não queremos pensar, nem falar. Há uma ideia errada muito comum sobre motociclistas: a de que somos todos inconsequentes, viciados em adrenalina ou incapazes de parar, mas não é verdade.
Esta questão já surgiu inevitavelmente, seja como medo ou possibilidade mais real.
Ou porque perdemos alguém, ou porque a vida muda, o corpo muda. Porque há momentos em que o cansaço pesa mais do que a vontade, porque há dias em que a chuva e o vento incomodam especialmente. Porque às vezes incomodam mais os velhos fantasmas do que já estamos velhos demais para isto…
Mas quem tem o “bicho” não abandona…
Quando muito faz pausas, mas acaba por voltar, ou vive num misto de eterna saudade e puro arrependimento o resto da vida.
Eu pensei seriamente nisso no dia em que tive o acidente e os médicos me aconselharam deixar a moto de lado. “Foi complicado, vai ter dores se andar e pode agravar.” E tenho. Sempre que ando. Isto não é romantizado, nem heroico, é apenas a verdade.
Há muitos motociclistas a andar com lesões antigas, dores crónicas e inúmeras limitações. Continuamos não porque ignoramos isso, mas porque a alternativa é pior — a sensação de amputação, como se tirassem qualquer coisa que faz sentido em nós.
Para amigos e família esta minha decisão: é muito estúpida.
E eu não a consigo explicar. Mas a malta do bicho percebe que não é uma questão lógica, nem de hobby, é um lugar, é identidade, é forma de estar. É uma parte do meu equilíbrio mental que não aparece nas radiografias que os médicos tiram.
É verdade que a moto não nos poupa, mas isso não é necessariamente mau. Ela obriga-nos a estar ali, num mundo que anda em piloto automático, a presença que ela nos exige é viciante. É um lugar onde desligamos desse automático e entramos num espaço único. E talvez seja isso que nos faz voltar, mesmo quando não é confortável. A moto não anestesia, acorda-nos para a vida.
Enquanto subir para a moto fizer mais sentido do que não subir, mesmo com tudo o que isso implica, continuamos.
Boas curvas.
Mesmo quando doem.//
Texto publicado originalmente na revista Andar de Moto de Dezembro de 2025


