Opinião | 07-01-2026 07:00

Viver o tempo

Viver o tempo

Cada vez parece que é mais difícil tipificar uma época de um Ser Humano, dado que, desde o seu nascimento, até ao seu ocaso, as transformações culturais e sociais ocorridas compelem a uma capacidade de adaptação que nos desafia.

Já não somos exemplos representativos de uma determinada época, como foram os nossos antepassados. Sim, olhando para trás, é fácil localizarmos e relacionarmos uma geração específica – ou mais do que uma - com uma época e com os seus costumes e hábitos comportamentais. Hoje em dia, tal é quase impraticável, sugestionando-se que tudo se transfigura a velocidades vertiginosas.

Cronologicamente, aliás, podemos até afirmar que somos protagonistas de vários tempos, de várias micro épocas, dado que a mutação social, cultural e económica é exponencial, pelo menos a sua percepção. Tudo se torna obsoleto num espaço de tempo cada vez mais curto. Cada vez parece que é mais difícil tipificar uma época de um Ser Humano, dado que, desde o seu nascimento, até ao seu ocaso, as transformações culturais e sociais ocorridas compelem a uma capacidade de adaptação que nos desafia.

Na verdade, o Ser Humano tem sobrevivido e vingado na competição entre espécies, não por ser o mais forte, mas por ter revelado uma notável capacidade de adaptação. Essa capacidade é, afinal, o nosso maior trunfo.

Ao invés, revela também que, se perdermos essa mesma capacidade, perderemos também as possibilidades de medrar por aí. Ora, à primeira vista, a velocidade absurda das mutações sociais e tecnológicas, tem como primeira consequência a incapacidade de muitos conseguirem absorver e digerir essas alterações, não se conseguindo adaptar, ficando irremediavelmente para trás nesta correria infinita.

Quanto maior a velocidade de transformações, maior será o número de pessoas que baixará os braços como sinal de impotência.

Todavia, sendo preocupante, não é inteiramente verdade que essas transformações sejam assim tão profundas. As suas percepções sim, são avassaladoras. Arriscando contrariar o pessimismo vigente, se pensarmos melhor, todos nós conseguiríamos viver em meados do séc. XX - ou mesmo no seu início: de um modo geral e nos lares das sociedades ocidentais mais desenvolvidas – onde não se incluía Portugal -, o telefone e o rádio já se achavam massificados; as cozinhas já estavam dotadas de fogão e de máquinas de lavar roupa; as casas de banho já não eram uma raridade e a televisão começava a impor-se como presença obrigatória. Ou seja, nós conseguiríamos viver nos anos 40, 30, ou mesmo 20. Já os nossos avós, poderiam também facilmente viver hoje em dia sem sustos civilizacionais.

Note-se que ainda hoje usamos gravata…

Se recuarmos, porém, às primícias do séc. XIX, o cenário altera-se radicalmente: o salto provocado pela revolução industrial foi incomparavelmente mais significativo do que o somatório de todas as transformações a que hoje assistimos.

Quando as questões da produtividade – que em Portugal é paupérrima – e da competitividade são levadas ao absurdo, aceleramos a percepção de que o tempo nos foge e que, aqui e ali, estamos a ficar irremediavelmente para trás.

Donde, neste início de 2026, é fundamental que saibamos destrinçar o essencial do acessório, percebendo que também é necessário saber parar, dormir, ler, passear e sorrir.

Compreender que, na hora do verdadeiro aperto, muitos dos problemas que antes nos inundavam, se convertem subitamente em meras bagatelas, que muitas delas se resolvem por si próprias e que saber apreciar a vida é, sobretudo, saber contemplar com o coração.

Em tempos de incerteza, sobreviver talvez signifique acreditar menos em narrativas apocalípticas de metamorfoses desmedidas e aprender mais a tudo relativizar, a saber rir de nós próprios e a saber adaptarmo-nos com ânimo e lucidez.

P.N.Pimenta Braz

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