José Saramago: da Azinhaga para o Mundo
Grato deve ser o distrito e a região onde nasceu José Saramago. Em Mafra, no seu convento-palácio, que recentemente recebeu o Museu Nacional da Música, os serviços educativos recebem os visitantes com uma recriação histórica que dá a conhecer e revisita o romance Memorial do Convento.
É sobejamente conhecida a biografia e o percurso do escritor José Saramago, nascido na aldeia da Azinhaga em 1922.
Com a idade de 76 anos de idade, no mesmo ano em que ocorria a Expo 98, recebeu o Prémio Nobel da Literatura, o único que língua portuguesa até aos nossos dias . José Saramago, com um discurso todo concentrado na sua família e no "homem mais sábio que conheci em toda a minha vida que não sabia ler nem escrever", dirigiu-se ao Reino da Suécia e ali recebeu o galardão de maior prestígio internacional.
São cerca de 40 as obras que escreveu ao longo de uma vida cheia: artigos de opinião, romances, contos, livros infantis, peças de teatro, ensaios filosóficos, crítica literária, diários, correspondência, poesia. É fácil encontrar a sua vasta bibliografia enriquecida por alguns volumes de "Diários de Lanzarote" que também ficaram famosos no meio da sua vasta Obra
Por detrás de um rosto austero escondia-se um homem sensível e culto, orgulhoso das suas raízes, do seu autodidactismo e do seu cosmopolitismo e universalismo. Como costumo afirmar muitas vezes é em pequenas localidades, com a suas limitações e falta de horizontes, que surgem os grandes vultos que marcam a história de um país. Para ler Saramago devemos ignorar a pontuação convencional de um texto. A sua prosa presta-se a ser lida oralmente, como se fosse um eco antigo de um bardo, uma escrita poética para ser lida com alguma teatralidade, com pausas e momentos de elevação, ou de suspensão de respiração, como se se tratasse da leitura de uma pauta musical, ora em galope, ora numa suave lírica sussurrante e em surdina.
A sua imaginação era prodigiosa, revisitava o passado histórico de Portugal, nos seus romances, ou criava, com a sua pena, romances premonitórios, como o Ensaio sobre a Cegueira. Muitos dos seus romances deram origem a filmes e peças de teatro de grande êxito. Apenas o vi uma única vez na vida, nos meus anos universitários, quando visitava a feira do livro de Lisboa no Parque Eduardo VII. A sua figura impunha-se e estávamos ainda longe dos anos do prémio Nobel.
O último longo capítulo da sua vida passou-o nas Ilhas Canárias, na Ilha de Lanzarote, ilha de paisagem lunar pela qual se apaixonou. Terá sido uma espécie de exílio, onde todos os dias, com uma conhecida disciplina, escrevia pelo menos uma página durante todas as manhãs
Um dos livros mais comoventes que escreveu e um dos últimos, As Pequenas Memórias, é aquele em que homenageia os seus avós, ambos analfabetos, e abraça as oliveiras por si plantadas. Esse gesto é de um grande significado, abraça a árvore que já muito viveu e continuará a viver e abraça os seus avós, numa espécie de panteísmo espiritual em que revê a natureza onde estes cresceram e viveram e onde Saramago nasceu.
Grato deve ser o distrito e a região que possui um vulto literário nobelizado. Na Golegã, além do estúdio fotográfico de Carlos Relvas e da famosa feira do cavalo que quase todos conhecemos, temos o privilégio de poder visitar a aldeia da Azinhaga. Ali encontramos a escultura de José Saramago sentada num banco de jardim à beira da estrada, um olival plantado com cem oliveiras que o homenageou no ano do seu centenário, e um pólo cultural, ligado à Fundação José Saramago sediada em Lisboa na Casa dos Bicos, e na qual se organizam muitíssimas exposições, actividades culturais e vão sendo lançadas publicações, organizados passeios culturais, e exposições de arte. Podemos também admirar o casario térreo característico de uma antiga aldeia de feição ribatejana, provar a sua gastronomia local e passear pela beira-rio e por aquelas paisagens ribeirinhas esplendorosas, repletas de choupos e pauis.
Em Mafra, no seu convento-palácio - que recentemente recebeu o Museu Nacional da Música – os serviços educativos recebem os visitantes com uma recriação histórica que dá a conhecer e revisita o seu romance, O Memorial do Convento.
Viajar é uma experiência espiritual, uma forma de nos enriquecermos, de aprendermos. E se formos munidos previamente com algumas leituras, o que encontramos revela-se e dá-se a conhecer muito mais facilmente. Da aldeia da Azinhaga para o Mundo, assim se resume, talvez, aproximadamente, a vida de um grande escritor.


